Ttulo: Marcada Pelo Passado
Autor: Penny Jordan
Ttulo Original: Past Passion
Dados da Edio: Harlequin Ibrica, Madrid, 1994
Gnero: romance
Digitalizao: Dores Cunha
Correco: Edith Suli
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de pgina: cabealho
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

ROMANCES com CORAO
Editados por HARLEQUIN IBRICA, S. A.
(c) 1991 Penny Jordan. Todos os direitos reservados
MARCADA PELO PASSADO, N.2 102 - 22.6.94.
Titulo original: Past Passion.
Publicado originalmente por Mills & Boon. Ltd., Londres
Todos os direitos, incluindo os de reproduo total ou parcial,
so reservados.
Esta edio foi publicada com a autorizao de Harlequin
Enterprises BV.
Todas as personagens deste livro so fictcias. Qualquer
semelhana com alguma pessoa, viva ou morta,  pura
coincidncia.
(r), tm: Harlequin, Julia, logotipo Harlequin e Novelas com corao so marcas registadas por Harlequin Enterprises BV.
I.S.B.N. 84-396-3714-4 Depsito legal: M-13016-1994 Fotocomposio: M.T., S.A. Madrid Impresso: LITOPRINT, S.A. Fuenlabrada
DISTRIBUIDOR EXCLUSIVO PARA PORTUGAL M.I.D.E.S.A Rua Dr. Jos Esprito Santo, love 1 - A
1900 LISBOA

Captulo 1
Ao descer do seu carro, Nicola ajeitou a saia do vestido antes de olhar com ansiedade para os escritrios. Faltavam dez minutos para as nove e o estacionamento estava
quase cheio. Naquele dia, o novo dono da empresa faria a sua apario oficial.
Nicola estava em viagem quando se realizaram as inesperadas negociaes de venda da empresa; no entanto, os seus companheiros de trabalho falaram-lhe disso.
Era bem sabido que Alan Hardy, o antigo dono da pequena empresa construtora tinha deixado de se interessar pelo negcio desde a trgica morte do filho, mas ningum
esperava que vendesse a empresa a um estranho, e ainda menos, a algum para quem, aparentemente, a aquisio da empresa era s outra aquisio para o seu crescente
imprio comercial.
Nicola tinha sido a secretria e assistente pessoal de Alan desde que voltou da cidade havia oito anos. Felizmente, teria o mesmo posto com o novo dono, ou pelo
menos, isso lhe tinham dito.
Parte do pessoal estava irritado porque Alan tinha mantido em segredo a mudana de dono da empresa. Nicola, em vez de sentir raiva, sentia compaixo por Alan e por
Mary, a esposa dele.
A morte do filho num acidente de automvel
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tinha destrudo a vida de ambos e as suas esperanas para o futuro. Era natural que Alan tivesse perdido o interesse pela empresa.
Nicola suspirou. Sentia-se segura da sua capacidade para trabalhar em harmonia com o novo chefe que, segundo o que lhe tinham dito era provvel que nomeasse um gerente
para tomar conta da empresa, para ele a visitar s uma vez por semana. Portanto, ela trabalharia para o gerente. No entanto, durante o fim de semana, Gordon, o seu
noivo, tinha-lhe expressado as suas dvidas com respeito a que ela fosse a secretria indicada para um empresrio to importante e ambicioso.
Os comentrios de Gordon irritaram-na, mas controlou os seus sentimentos. Gordon era o tipo de homem que mantinha uma atitude antiquada para com as mulheres. Nicola
culpava a me dele por isso, pois era uma mulher muito dominadora.
Nicola comeava a ter conscincia de que o tempo que passava ao lado de Gordon, a deixava, com frequncia, irritada e incomodada.
Conheciam-se de quase toda a vida, mas s h dois anos tinham comeado a ver-se com regularidade, i
No ltimo Natal, Gordon comentou que deviam considerar casarem-se, mas ela evitou o tema.
O problema era que vivendo numa comunidade pequena, uma jovem solteira tinha que ter um noivo para poder ter vida social.
As mulheres solteiras de mais de vinte e cinco anos eram vistas com uma certa suspeita pelos vizinhos.
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Claro que Nicola tinha amigas do colgio, que agora estavam casadas e tinham famlia, e se fosse sincera, tinha que reconhecer que preferia o divertimento que obtinha
na companhia delas, que os encontros geralmente aborrecidos que tinha com Gordon.
A sua me tinha-se atrevido a dizer que a vida ao lado de Gordon seria maadora e Nicola estava de acordo com ela. No entanto, Gordon representava respeitabilidade
e moralidade, e Nicola tinha motivos para crer que precisava desses atributos na sua vida. Sem interessar que Gordon pudesse ser maador, e como era difcil lidar
com a me dele, Nicola pensava que tinha muita sorte em ser sua noiva.
Nicola respirou fundo, dirigiu-se para o edifcio de escritrios e retribuiu o cumprimento aos homens que encontrou na entrada, ignorando a forma como eles olhavam
para as suas pernas. Estava irritada consigo mesma porque agora sabia que a sua relao com Gordon se baseava unicamente na sua necessidade de se sentir segura.
Imediatamente, Nicola ruborizou-se. Desejou esconder-se em qualquer lugar..
Era ridculo sentir aquela carga, que nunca podia deixar e tudo por causa dum erro tonto de adolescente... Tinha repetido centenas de vezes para si mesma que aquele
erro no implicava que tivesse que castigar-se pelo resto da vida; no entanto, no podia afast-lo da sua mente.
Nos seus momentos de maior desespero, Nicola chegou a perguntar-se se devia falar daquilo com
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algum, mas o velho pnico familiar regressava e recordava os esforos para que ningum se inteirasse do que tinha feito. Em especial, nenhum homem devia suspeitar
que ela era o tipo de mulher que...
Enquanto se dirigia para o seu gabinete, Nicola notou que o seu corpo tremia. Porque  que escolhia precisamente aquele dia para se preocupar com o passado? Naquele
dia necessitava de se mostrar muito eficiente e impressionar bem. Tinha ouvido dizer que o novo dono era muito exigente. Ao que parecia tinha objectivos muito ambiciosos
e esperava que todos os que trabalhassem para ele estivessem de acordo com ele.
Nicola no precisava que algum lhe dissesse que a empresa era pouco produtiva e que os lucros eram muito baixos: ou que a fora trabalhadora tambm no era muito
eficiente e que o capataz dos homens omitia frequentemente alguns actos de negligncia que resultavam muito caros para os donos.
O nico motivo pelo qual a empresa ainda funcionava, era ser a nica construtora importante naquela rea rural.
Serviam uma rea bastante vasta e at h muito pouco tempo, no existia potencial de negcios para atrair a concorrncia.
No entanto, as coisas tinham comeado a mudar; as pessoas chegavam quela zona e compravam propriedades velhas, as quintas e os celeiros desocupados. Nicola pensava
que em breve alguma
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empresa rival lhes faria concorrncia e os levaria  falncia.
Muitos dos empregados no aceitavam a situao e como consequncia, o facto da empresa mudar para outro dono era motivo de grande ressentimento.
O novo dono foi descrito a Nicola como "um homem seguro de si mesmo, e muito inteligente".
S dois dos seus companheiros de trabalho lhe tinham falado bem dele. Um deles foi Evie, a assistente de Nicola, uma linda jovenzinha de dezoito anos, recm sada
do liceu. Evie disse-lhe, entusiasmada, que o senhor Hunt era muito bonito para ser to velho e que se no fosse Danny, ter-se-ia apaixonado por ele.
Nicola riu um pouco ao ouvi-la, pois sabia, pelo que Alan lhe disse, que Matthew Hunt ainda no tinha feito trinta e cinco anos.
Alan descreveu-o como um homem de negcios astuto, ainda que pouco convencional, e o pai de Nicola confirmou-o. O seu pai trabalhara num banco da cidade, mas preferia
viajar todos os dias para l e continuar a viver na aldeia. Ele tinha dado a Nicola todos os pormenores sobre o novo patro dela relativamente  sua vida profissional,
visto que da sua vida privada s se sabia que no era casado.
Uma das amigas de Nicola brincou e fez o comentrio:
- Bem, s pode ser melhor que Gordon. Santo Cu, Nicki, querida! Hoje em dia toda a gente sabe que numa boa relao h muito mais que sexo
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excitante. A confiana  importante, mas o Gordon  uma coisa terrvel e a me dele...
Nicola foi obrigada a rir. Anna era conhecida pela sua falta de tacto e tinha que dizer o que pensava. Nicola no se ofendeu, pois sabia que a inteno da amiga
era boa, mas para ela e ideia de ter um romance com o novo patro estava completamente fora de cogitaes.
De qualquer maneira, pelo que tinha ouvido dele, parecia o tipo de homem que procurava sem dvida, que as mulheres que sassem com ele fossem fisicamente atraentes,
o que ela no era.
Ao entrar um momento no vestirio, Nicola olhou-se ao espelho e no seu rosto apareceu um olhar de reprovao.
No era muito alta, media um metro e sessenta e dois, e o seu corpo era frgil e delgado. Tinha herdado da me a pele plida e o cabelo escuro, e do pai os olhos
azuis.
Era uma combinao pouco comum, que, juntamente com a delicadeza da sua estrutura facial e da boca suave e cheia, atraa os olhares dos homens.
No entanto, os homens que a conheciam, ficavam rapidamente a saber que a sua aparente sensualidade no era respaldada pelo seu modo de ser.
Alguns descreviam-na como "reprimida", geralmente depois de terem sido rejeitados. Outros, menos crticos e com um ego menos ferido, diziam que era retrada e calada.
Nicola sabia muito bem o que os homens pensavam
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dela, mas no se importava, uma vez que preferia que a considerassem inacessvel e escrupulosa. Nicola respirou fundo, pegou na carteira e dirigiu-se para
a porta. Faltavam cinco para as nove e tinha coisas mais importantes com que se preocupar que o passado.
Mais tarde teve que perguntar-se se tinha sido uma premunio, que a lgica e a razo a impediram de reconhecer.
Apesar de j estarem feitos todos os requisitos legais, Alan em pessoa entregaria o controle do negcio a Matthew Hunt, naquela mesma manh.
Ia haver uma breve cerimnia para o apresentar ao pessoal, e esse acontecimento estava marcado para as dez horas.
Tinha sido ideia de Nicola e Alan concordara.
Quando a jovem abriu a porta do pequeno escritrio que partilhava com Evie, esta j estava sentada em frente do computador. Evie sorriu-lhe com afecto e com a cabea
indicou a porta interior.
- Alan chegou h um momento - informou.
- No tem bom aspecto. Ofereci-lhe uma chvena de caf, mas recusou.
Nicola observou a t-shirt vermelha da sua ajudante, e teve que reconhecer que no podiam ser mais diferentes.
Evie tinha dezoito anos e era uma jovem simptica e aberta. No a.incomodava chamar a ateno e tinha sempre os lbios pintados de vermelho vivo e usava grandes
brincos e roupa de
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cores vivas. Ao contrrio, Nicola, apesar dos seus vinte e seis anos, esta com a opinio dos outros e tentava ser a personificao da discrio. Usava sempre fatos
de saia e casaco de cores apagadas e escuras e,  claro, nunca pintava os lbios de vermelho.
Evie acrescentou, depois dum momento:
- Ele ainda no chegou. Pergunto-me que tipo de carro ter... vai com certeza animar isto... Danny dizia-me ontem  noite que agora teremos um pouco de aco.
Danny, o noivo de Evie, tambm trabalhava na empresa, como carpinteiro.
Nicola pegou na correspondncia, serviu uma chvena de caf para Alan e entrou no gabinete do patro.
O seu corao entristeceu quando o viu. Os dois anos passados desde a morte do filho tinham-no transformado num homem triste e distante. Alan parecia ter perdido
a vontade de viver. Nicola suspeitava que estava a beber mais do que convinha. No gabinete havia um armrio que estava sempre fechado  chave e por vezes, quando
entrava, Nicola sentia no ar um cheiro a lcool.
tom, o filho de Alan, tinha vinte e seis anos e estava quase a terminar a universidade, quando morreu. Era um jovem inteligente e amvel, e o acidente em que morreu
foi to absurdo que era compreensvel que Alan no conseguisse aceitar.
O condutor do outro carro estava bbado... invadiu a faixa contrria da estrada e estampou-se contra o carro de tom. Morreram ambos. Ne-
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nennhum pai conseguia aceitar uma coisa assim com facilidade e agora, o negcio que devia passar para as mos do tom era vendido a outra pessoa.
- Convoquei os empregados para as dez horas, para assistirem  reunio - recordou Nicola ao patro e colocou a chvena de caf em frente dele.
- Felizmente, todos os homens esto a trabalhar no povoado, na casa da rua Duke, e apesar de lhes estarmos a pagar, dei-lhes mais tempo para o almoo para poderem
vir...
O contrato para a restaurao duma casa nos arredores do povoado tinha clusulas estritas relativamente ao cumprimento da obra dentro do tempo fixado. Nicola pensava
que em vista da lentido dos seus trabalhadores, tais clusulas significariam perdas para a empresa. E o facto de Alan o ter aceitado, era s uma amostra de como
a morte de tom o tinha afectado.
Quando Nicola comeou a trabalhar para ele, Alan tinha tudo sob controle e dirigia bem o negcio. Agora as coisas eram diferentes e ela tinha com frequncia que
lhe mostrar alguns pontos dos contratos. Em certas ocasies, Nicola tinha mesmo que redigir de novo os contratos, para eles terem lucros.
O nico stio onde se podiam reunir todos os funcionrios da empresa era um armazm, adjacente ao edifcio dos escritrios. Ali se celebraria a reunio para conhecer
oficialmente o novo patro.
Da janela do seu escritrio, Nicola podia ver o jardim da entrada, e quem entrava ou saa. Portanto,
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quando faltavam dez minutos para as dez e no jardim entrou um ruidoso e maltratado Land Rover, ela deixou escapar um suspiro de exasperao.
Apesar da empresa necessitar de clientes, no era o melhor momento para atend-los, visto que o novo patro estava quase a chegar.
O Land Rover estava cheio de lama e tinha sofrido um acidente de pouca importncia. Tinha todo o aspecto do veculo dum fazendeiro da localidade.
O carro deteve-se justamente em frente do edifcio e o condutor desceu.
Era um homem alto, de ombros largos. Tinha um impermevel, jeans justos e sujos e botas gastas. Tinha o cabelo castanho escuro que lhe chegava ao pescoo. A sua
mo, ao fechar a porta do Land Rover, estava bronzeada, devido  constante exposio aos elementos da natureza, como Nicola notou.
Quando o homem se virou, todo o mundo de Nicola ficou de pernas para o ar, e o seu corpo pareceu gelar com o choque.
No, no era possvel... no podia ser. Era um erro. Ela estava enganada... no podia ser o mesmo homem. Afinal, tinham passado oito anos... e ela s o tinha visto
uma vez, com luz tnue...
No entanto, era ele, Nicola sabia... todo o seu corpo o tinha reconhecido. Nicola estremeceu; desejou fechar os olhos e apagar aquela imagem, enquanto as recordaes
que a enchiam de pnico a dominavam.
Quando os homens esto sob o efeito do lcool

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no so amantes respeitadores e cuidadosos, e sim pouco hbeis, descuidados; no entanto, ele foi diferente... permitiu-lhe...
Nicola estremeceu de novo, o que fez com que Evie olhasse para ela com ansiedade.
- Ests bem? Ests muito plida - aproximou-se da secretria de Nicola e viu o que acontecia l fora. -  o... o novo patro... Matthew Hunt. J chegou...  melhor
avisares Alan.
Matthew Hunt? Aquele era Matthew Hunt? Nicola teve que se apoiar na secretria para evitar que os seus joelhos se dobrassem. Impossvel! No podia ser. Matthew Hunt,
o seu novo patro. O mesmo homem que...
Nicola mal podia respirar. A sua mente era um vulco de pnico prestes a explodir.
E se ele a reconhecia? E se ele...? Mas no, aquilo era impossvel... S a tinha visto naquela ocasio, disse Nicola para si mesma, para se animar. Nessa altura
ela tinha o cabelo mais comprido, e encaracolado tipo "afro".
Fechou os olhos e o seu corpo tremeu. Tentou evitar a lembrana daquela noite... o seu vestido... a maquilhagem... a sua maneira de se comportar... no, ele no
a reconheceria.
O corao de Nicola comeou a recuperar o ritmo normal, ainda que o corpo se mantivesse tenso. Evie disse a Alan que Matthew j tinha chegado. A qualquer momento
entraria no gabinete... no seu gabinete. Nicola tinha que estar preparada... Devia...
Respirou profundamente. De repente a porta
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abriu-se e Nicola pde ver Matthew Hunt, parado no umbral.
- Menina Linton?
Era uma afirmao, no uma pergunta e Matthew Hunt respondeu automaticamente.
- Sim, sou Nicola Linton, senhor Hunt.
O sorriso que ele lhe dirigiu no era amvel nem afectuoso.
- Chama-me Matt - disse friamente. - No gosto de distines antiquadas.
O seu comentrio libertou Nicola do terror.
Matt Hunt no a tinha reconhecido; no entanto, era evidente, pela maneira de a tratar, que ela no lhe tinha agradado, e isso significava problemas. Aquele homem
ia ser o seu novo patro, a no ser que ela abandonasse o emprego, o que no queria fazer, e seria um inferno trabalhar com ele se no se dessem bem.
A aldeia no era muito grande e no era fcil arranjar emprego, e por outro lado, Nicola tambm no queria trabalhar na cidade. Portanto, tinha que demonstrar que
era profissional.
Enquanto fazia qualquer comentrio, Nicola tinha conscincia de que falava e se movia como um autmato, como um mecanismo de defesa, quando na realidade o que desejava
era virar-se e fugir para evitar o olhar daquele homem.
Nicola ouviu que Alan saa do seu gabinete. Evie sorriu com entusiasmo a Matthew Hunt, que retribuiu, surpreendentemente, com um gesto afectuoso.
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De forma inexplicvel, Nicola sentiu que lhe apunhalavam as entranhas e quase gemeu em voz alta. Os seus olhos encheram-se de lgrimas... Lgrimas! quando no tinha
chorado desde que tinha dezoito anos... a idade de Evie. Nessa idade Nicola era uma jovem ingnua e insegura.
Nicola voltou-se e tentou controlar aquela reaco tonta.
Lgrimas porque um homem a tratava com frieza e falta de interesse, e em troca, sorria a Evie... Porqu? Em especial, quando o dito homem era o protagonista dos
seus pesadelos. No teria aprendido nada depois de viver todos aqueles anos com a carga da sua prpria culpa?
- So quase dez horas. Acho que temos uma reunio pendente... quero que seja o mais breve possvel. H muito trabalho e esta tarde tenho uma reunio na cidade...
- disse Matthew.
Em silncio, Nicola dirigiu-se para a porta. Sentia as pernas terrivelmente fracas e a cabea como se estivesse cheia de algodo. Ao chegar  porta, Matthew Hunt
observava-a detidamente.
Nicola sentiu gotas de suor na pele, mas no cedeu  urgente necessidade de voltar a cabea e olhar para ele, para ter a certeza de que no a tinha reconhecido.
Evie seguiu-a e por ltimo Alan e Matt saram do gabinete.
Nicola no conseguiu concentrar-se durante a reunio. Matthew Hunt era o seu novo patro!
- Tens a certeza de qie ests bem? - perguntou Evie. - Ainda ests muito plida.
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- Estou bem, muito bem...
- mentiu Nicola. -
Quando voltou para casa e a me lhe perguntou o resultado do primeiro encontro com o novo patro, Nicola disse que tinha corrido tudo na perfeio.
Claro que no era verdade, pois tinha-se sentido observada e estudada por Matthew Hunt durante todo o dia. Nicola estava esgotada pela tenso. Suspeitava, pelas
perguntas que ele tinha feito, que considerava que ela tinha sobre os ombros demasiados assuntos da empresa.
Nicola podia ter explicado que no tinha agido assim para controlar a empresa, mas sim por compaixo; no entanto, o orgulho obrigou-a a ficar calada. O orgulho e
uma certa obstinao.
No passado Matthew Hunt tinha-a julgado mal e agora tinha voltado a faz-lo.
No fim da semana seria nomeado um novo gerente para se ocupar da direco da empresa. At l, Alan ocuparia o lugar de conselheiro.
Matthew s esteve no escritrio um par de horas e quando partiu, Nicola sentia-se exausta.
No tinha dvidas de que, profissionalmente, ele era dinmico e estava muito bem informado. Depois de o ouvir, Nicola compreendeu porque tinha tanto xito.
- A propsito - disse a me - Gordon telefonou. Pediu-me que te dissesse que cancelava o
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encontro desta noite. Parece que a me no se sente muito bem.
A sua me tinha falado sem qualquer inteno crtica, mas Nicola conhecia a opinio dos pais a respeito de Gordon e da sua relao com ele. Naquela tarde iam jogar
tnis, mas Nicola no lamentava que ele tivesse cancelado o encontro.
- Acho que vou para a cama cedo - comentou Nicola. - Sinto-me muito cansada.
- Uma boa caminhada fazia-te melhor que ir cedo para a cama... dormir demais costuma deprimir-te - opinou a me com firmeza.
Nicola conseguiu sorrir. A me era sempre sincera nos seus comentrios, ao contrrio de Gordon que era o oposto.
- Talvez tenhas razo - respondeu a jovem.
- Tenho. E mais ainda, podia levar contigo aquele teu co gordo e preguioso.
Olharam as duas para o plcido labrador que dormitava em frente da lareira. Nicola riu outra vez.
- Estou a entender. No sou eu que preciso de sair para caminhar e sim Honey...
- Ser bom para os dois - disse a me.
Depois de uma caminhada de duas horas, Nicola sentou-se numa cerca a descansar um pouco. Mas, ainda que o passeio lhe tivesse sabido bem, a sua mente continuava
presa ao passado... olhou para Honey, que estava deitado aos seus ps.
At quele dia, Nicola tinha pensado que estava
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a salvo do passado. Agora dava-se conta de que tinha estado enganada.
Nicola saiu de casa, por iniciativa prpria, para trabalhar na cidade e compartilhar um apartamento com trs jovens da universidade. Os seus pais consideravam-na
jovem demais; no entanto, cederam quando ela argumentou que tinha dezoito anos e que legalmente era uma pessoa adulta.
Nicola encontrou emprego num estdio de arquitectos; era a mulher mais jovem da empresa. E talvez por isso, sentia-se deslocada relativamente s suas companheiras...
ento, conheceu Jonathan.
Jonathan era filho do scio principal da empresa. Supunha-se que chegaria a ocupar o lugar do pai; tinha vinte e seis anos, era alto, loiro e encantador... e, evidentemente,
Nicola apaixonou-se.
Como uma ingnua, Nicola achou que ele tambm se tinha apaixonado por ela, mas um dia ouviu uma conversa que mudou o rumo da sua vida.
Nicola fechou os olhos e estremeceu. Em frente dela, a tranquila paisagem desvaneceu-se e mais uma vez, viu-se de p no pequeno escritrio de Mathieson & Hendry...
Captulo 2
- Claro que no estou interessado nela, querida... Como podes pensar nisso?
Nicola ficou gelada, ao reconhecer a voz de Jonathan. A impresso de ouvi-lo dizer "querida" paralisou-a.
Jonathan estava no corredor, e era bvio que ignorava que Nicola estava ali, mas Susan Hodges sabia... porque estava com ela quando a senhora Ellis lhe pediu que
fosse buscar a cpia dum relatrio.
- Bem, tens sado com ela - ouviu a voz de Susan.
- S porque tu no estavas disponvel, querida. Oh, vamos... Podes imaginar sinceramente, que me pode agradar uma mulher to pouco sexy e to maadora como aquela
pequena serigaita? Nem sequer sabe beijar bem... no  como tu!
Nicola ouviu a risota, seguida pelo inequvoco som dum beijo.
Sentiu-se doente e irritada ao mesmo tempo, to desesperadamente infeliz que mal podia conter o pranto. Estava to furiosa com Jonathan que teria sido capaz de lhe
bater.
Mas Nicola tambm estava irritada consigo mesma por ter sido to tonta para acreditar que Jonathan a respeitava e amava, quando na
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ele e Susan Hodges... Susan Hodges era a loira mais deslumbrante do escritrio, a que usava roupa mais justa e a que ria mais alto.
Se algum lhe tivesse dito que Jonathan mantinha uma ligao com Susan, Nicola teria negado no mesmo momento, argumentando que Susan no era o tipo de Jonathan.
- Ento, no levas a menina pudica e formal  festa desta noite? - perguntou Susan a Jonathan.
Ele riu.
- Acho que no. Aposto que tens algum vestido espectacular para pr. No  verdade, Susan? Uma coisa surpreendente e sexy?
- Ters que esperar para ver, no achas? respondeu Susie num tom provocador. - Claro que podes vir a minha casa antes, para o ver.
Riram ambos enquanto caminhavam pelo corredor. No interior do escritrio, Nicola sentia-se mais sozinha e miservel que nunca.
Era verdade que Jonathan no a tinha convidado especificamente para ser o par dele naquela noite, durante a celebrao do aniversrio do seu pai, mas Nicola assumiu...
pensou... tinha mesmo comprado um vestido para a ocasio. Durante o fim de semana, com o conselho e apoio da me, pois queria impressionar Jonathan.
O vestido era de veludo azul escuro, de decote redondo e manga comprida. Nicola compreendeu imediatamente, que o vestido era o adequado para a serigaita, maadora
e pouco sexy, que Jonathan tinha descrito.
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. Sentia-
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-se doente com a amargura. A ira dominou-a, e uma necessidade de demonstrar a Jonathan e a todos, que no era a pessoa pouco interessante que obviamente pensavam
que era, que podia ser to excitante, elegante e desejvel como as "Susan" deste mundo.
Mais tarde, Nicola perguntou-se se tinha sofrido um ataque de loucura, pois de contrrio nunca teria agido assim e era pouco provvel que o fizesse de novo.
A festa do aniversrio do scio principal da empresa era um acontecimento importante. Tinham alugado um salo num hotel do centro; haveria um bufete seguido de baile,
e ainda que Nicola tentasse no o demonstrar, estava nervosa e entusiasmada com a festa, desde que Jonathan comeou a sair com ela.
Os pais dele estariam presentes, assim como as irms. No seu mundo de sonhos, Nicola tinha-se imaginado ser apresentada  famlia de Jonathan e aceite como noiva
dele.
Agora compreendia como as suas fantasias tinham sido tontas. No sabia se odiava ou amava Jonathan, estava confusa. No entanto, estava decidida a demonstrar-lhe
o engano dos seus cruis comentrios, assim como o desejvel que podia ser... muito mais desejvel que Susan Hodges.
Todo o pessoal teria a tarde livre para se preparar para a festa. Quando teve a certeza de que Susan e Jonathan se tinham
afastado, Nicola regressou
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ao seu gabinete com a cpia do relatrio.
Durante o resto da manh, no conseguiu concentrar-se no trabalho. Fazia planos mentalmente e tomava decises. Assim que pde, pegou no casaco e apressou-se a sair.
Os escritrios da empresa ficavam no centro da cidade, na rea dos bancos e comrcio e podia ir a p s lojas.
Nicola tinha uma conta no banco e felizmente tinha com ela o livro de cheques.
Uma ardente sensao oprimia-lhe o peito e motivava-a, empurrava-a... ser pensar duas vezes, dirigiu-se ao salo de beleza que tinha aberto recentemente perto do
escritrio.
A recepcionista tinha o cabelo muito curto e dum impressionante cor de rosa. Antes de poder mudar de opinio, Nicola explicou o que queria. Dez minutos depois, estava
diante do estilista, que lhe perguntou:
- Tem a certeza disto?
Nicola sentiu raiva ao compreender que ele tentava dizer-lhe que no podia imaginar uma pessoa to simples como ela com um penteado to moderno.
- Se no consegue faz-lo... - desafiou Nicola
Ele franziu o sobrolho.
- Oh, sou capaz de o fazer,  s que a mudana ser radical - dirigiu-lhe um olhar de estranheza.
- No me diz respeito... mas na realidade tem um cabelo to bonito. Talvez um pouco antiquado...
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o cabelo liso no est na moda... mas fazer esse tipo de permanente...
Nicola apertou os maxilares. Sabia exactamente o que queria e estava decidida. Recordou ter visto a fotografia na montra, uns dias antes, quando ia para o trabalho.
A modelo, de cabelo escuro como ela, tinha uma massa de caracis que davam uma sexualidade impressionante, mesmo aos olhos inocentes de Nicola. Nenhuma jovem nem
nenhuma mulher com aquele tipo de penteado podia ser descrita como simples e maadora... e  claro, no podia ser catalogada como pouco sexy.
- Quero-o assim - insistiu Nicola com desespero.
Trs horas depois, observou no espelho a sua imagem transformada e sentiu que o seu corao se afogava. Mal podia reconhecer-se...
O estilista observava-a seriamente, mas Nicola evitou que ele notasse como estava impressionada e desanimada.
Estudou a sua imagem e ignorou a palidez do seu rosto. Pagou a conta e pegou no casaco.
Uma vez na rua, Nicola sentiu-se aturdida e incmoda, mas ignorou aquela sensao e dirigiu-se a uns grandes armazns que havia perto.
A jovem da seco de cosmtica estudou-a com um gesto crtico quando Nicola lhe disse o que desejava.
- Baton vermelho... sim, definitivamente baton vermelho... este ano esto na moda os tons plidos de pele, pelo que tem sorte, mas teremos
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que fazer alguma coisa para pr os seus olhos em evidncia.
Meia hora depois, Nicola afastou-se do mostrador e controlou o impulso de limpar o baton, pois sentia que os lbios lhe pesavam.
Quando se mirou num espelho perto, mal conseguiu reconhecer-se.
No estava sexy? perguntou-se enquanto subia para a seco de roupa.
com firmeza, Nicola dirigiu-se onde estava a roupa mais vistosa e  moda.
- A mini-saia est de novo na moda - comentou a empregada, quando Nicola explicou que queria um vestido de festa. A empregada disse que tinha a sorte de ter umas
pernas compridas e esbeltas e que o seu corpo era o adequado para usar roupa justa. - Este vestido prpura vai ficar
perfeito.
Com a mesma amargura e dor que sentiu ao entrar no salo de beleza. Nicola regressou ao apartamento carregada com as compras e decidida a provar a Jonathan como
estava enganado a respeito dela.
Mas tinha demorado mais do que o previsto a fazer compras e mal tinha ficado tempo para tomar um duche e comer qualquer coisa.
Apesar de todos os cuidados, o banho deixou-lhe o cabelo com uma aparncia mais selvagem que quando saiu do salo de beleza.
Nicola mirou-se insegura ao espelho e perguntou-se se o cabelo "afro" no era uma mudana muito grande. No entanto, ningum, com a aparncia
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que agora tinha poderia ser considerada como pouco sexy.
Mirou-se outra vez ao espelho. Incmoda, decidiu que no estava segura da sua nova imagem e que, na realidade, no parecia ela mesma.
Necessitou de uma hora para conseguir reproduzir a maquilhagem que a vendedora lhe tinha feito. A sombra azul dava aos seus olhos uma cor extraordinria, mas no
estava segura de que tanto baton lhe ficasse bem...
Obrigou-se a recordar as palavras de Jonathan e ignorou os seus sentimentos. Depois ps o vestido novo.
Era estranho que uma coisa to pouco substancial fizesse o seu delgado corpo parecer to voluptuoso e tambm no estava segura de que prpura fosse a sua cor.
Por fim estava pronta.
O motorista do txi que tinha reservado para a levar  festa olhou para ela assombrado quando Nicola abriu a porta.
Agora s tinha que esperar que Jonathan a visse. Pensava que ela era inspida?.Que era pouco sexy? Nessa noite ia lamentar-se de todas as suas palavras de crtica.
Enquanto pagava o txi, Nicola viu que os seus companheiros de trabalho chegavam em grupo ou aos pares, e compreendeu que a melhor maneira de demonstrar a Jonathan
como estava enganado, seria chegar  festa acompanhado por um homem... o problema era que no conhecia nenhum
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outro homem na cidade e nenhum dos seus amigos impressionaria Jonathan fisicamente.
Jonathan era bonito, sofisticado, encantador... mas nada significava, recordou Nicola com amargura. No fez caso do olhar de surpresa das outras raparigas do escritrio
ao reconhec-las, quando se aproximou das portas do hotel.
- Nicola? s tu? Cus! Isso  uma peruca? perguntou uma delas.
- No,  uma permanente - disse Nicola. Lisa nunca lhe tinha agradado, pois era muito
parecida com Susan Hodges. Nicola levantou o queixo com desafio, ao notar a forma como Lisa estudava a sua aparncia. O companheiro da jovem tambm a observava,
mas duma forma muito diferente. Nicola sentiu-se intranquila, mas ignorou esses sentimentos e concentrou-se no seu desejo de vingana.
O vestbulo do hotel estava cheio de gente que entrava e saa. Na recepo, um placard de anncios indicava as cerimnias que se levavam a cabo e a suite. Para Nicola
foi fcil chegar  festa.
Estava familiarizada com a distribuio do hotel porque tinha ido ali vrias vezes almoar com os pais.
A tnue luz do salo confundiu-a um pouco ao entrar. Havia mesas individuais colocadas em volta da pequena pista de baile. Nicola dirigiu-se imediatamente a uma
mesa ocupada por algumas colegas do escritrio.
Todas fizeram comentrios sobre a sua mudana de imagem. S uma delas foi suficientemente
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pouco amvel para comentar que a surpreendia v-la chegar sozinha.
- Pensei que virias com o Jonathan - expressou a jovem.
Nicola agradeceu a luz tnue. Voltou a cabea e encolheu os ombros fingindo falta de interesse.
No entanto, o que menos sentiu foi desinteresse quando Jonathan entrou de brao dado com Susie.
Ele no olhou na direco de Nicola, mas Susie f-lo e foi incapaz de dissimular a surpresa.
Nicola estava decidida a que antes que a noite acabasse, faria Jonathan engolir as suas palavras. No entanto, compreendeu que se desejava conseguir o seu objectivo,
necessitava que outro homem fixasse a sua ateno nela e que deixasse muito claro que a achava maravilhosa...
No podia ser um qualquer... teria que ser algum muito especial, o tipo de homem que...
Nicola abriu muito os olhos e conteve a respirao ao ver o homem que acabava de entrar no salo.
Ao contrrio dos outros convidados que usavam traje formal, ele vestia roupa casual. Tinha uma camisa azul e jeans.
- Ora vejam! Olhem para aquele! - exclamou uma das suas companheiras de mesa e riu. - Gostava de saber de onde vem...
- Fazemos uma aposta? - perguntou outra das jovens. -  um dos nossos clientes mais importantes. Sabia que tinha sido convidado, mas acho que ningum esperava
que viesse...
As jovens riam e comentavam com entusiasmo
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os encantos do recm-chegado, mas Nicola no prestava muita ateno.
Um empregado aproximou-se com uma bandeja com copos de champanhe. Apesar de no ter o costume de beber, Nicola pegou num copo e sequiosa, bebeu-o.
O champanhe fez-lhe ccegas na garganta e f-la tossir um pouco, mas a sensao morna que percorreu o seu estmago depois de esvaziar o copo, foi muito agradvel.
Nicola sentiu-se melhor, com mais fora e segurana, mais decidida que nunca a demonstrar a Jonathan como estava enganado. Sentia-se um pouco tonta, mas aceitou
um segundo copo, convencida de que nunca ficaria bbeda com dois copos de champanhe.
Um pouco depois, uma das suas companheiras levantou-se da mesa e anunciou que ia ao bar. Perguntou a Nicola o que queria beber e ela, sem saber o que pedir, repetiu
o nome da bebida que a jovem sentada a seu lado tinha pedido, ainda que no fizesse a mnima ideia do que era um "VAT".
Quando as bebidas chegaram, Nicola notou um sabor estranho na sua, no entanto esvaziou o copo.
Jonathan e Susie no estavam sentados com os pais dele. Nicola apercebeu-se disso enquanto percorria o salo com o olhar. De repente viu Jonathan com o homem dos
jeans, Susie estava a seu lado, e sorria.
O desconhecido era muito mais bonito e atraente que Jonathan; ao pensar o que sentiria ao ser
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acariciada por aquele homem, percorreu-a um estremecimento delicioso.
Sem pensar no que fazia, Nicola levantou-se apesar do enjoo e da fraqueza que sentia nas pernas. com pouca firmeza caminhou e aproximou-se do trio. Susie agarrou
possessivamente Jonathan, e ele ficou a olhar para Nicola com a boca aberta. A jovem foi imediatamente invadida por uma agradvel sensao de triunfo. Depois sorriu-lhe
com o tipo de gesto que via frequentemente nos lbios de Susie e inclinou a cabea para os seus caracis se moverem, ainda que com o movimento se tenha sentido bastante
doente.
- Ol, Jonathan - ignorou Susie e fixou a vista no rosto do estranho; perguntou-lhe: - Queres danar?
Nicola sentiu um estranho prazer ao ver a expresso de Jonathan. Tinha chegado o momento de lhe demonstrar que era desejvel, sexy... que os homens a desejavam sim.
O desconhecido observava-a com estranheza. Por um momento o seu olhar endureceu e Nicola sentiu vontade de chorar. Apesar de todo o lcool que tinha tomado, pde
compreender que ele no a achava atraente, que a rejeitaria.
Nicola levou a mo aos lbios e comeou a recuar; sentia a cara a arder por causa da humilhao. No entanto, antes de poder afastar-se, a mo do homem fechou-se
em torno do seu pulso e deteve-a. Ela olhou para ele confusa, Nunca imaginou que fosse possvel que um homem a segurasse com leveza e ao mesmo tempo com segurana.
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Ele no exerceu qualquer presso na sua pele; no entanto, Nicola soube que se tentasse afastar-se, aqueles dedos se fechariam com fora.
A surpresa f-la voltar-se e olhar para o desconhecido. Os seus olhos eram cinzentos e possuam um certo brilho de deciso. Demasiado estupefacta para resistir,
Nicola ficou onde estava, perguntando-se porque sentia de repente, que tinha saltado para o vazio. Era o champanhe? Nicola apertou a mo livre contra o estmago,
ao ouvir o homem dizer a Jonathan:
- Por favor, desculpe-nos. Parece que a senhora quer danar...
Apesar de Nicola no ter percebido ironia naquela voz, ruborizou-se ao ouvir a palavra "dama".
As "damas" no se vestiam como ela naquela noite... no usavam aquele tipo de maquilhagem e claro, no se aproximavam dum estranho para lhe pedir que danasse com
elas.
Nicola hesitou um pouco. Desejava escapar da absurda situao que ela mesma tinha criado, mas tambm queria vingar-se.
Olhou para Jonathan e descobriu nos seus olhos um brilho de raiva. Estava irritado porque ela danava com outro e no s isso, como ainda temia diz-lo e desafiar
aquele homem.
Trmula, Nicola reconheceu que o seu plano funcionava. Afinal, o cabelo, a roupa, a maquilhagem, no eram um desastre. Jonathan olhava para ela como uma mulher desejvel,
e incomodava-o v-la danar com outro.
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Nicola sentiu um grande prazer; voltou-se para o seu novo acompanhante e sorriu.
Os olhos dele abriram-se ainda mais, antes de afastar a vista de Nicola para se fixar em Jonathan.
- Em breve nos veremos - disse o desconhecido a Jonathan.
Sem saber exactamente o que sucedia, Nicola viu-se na pista de dana nos braos do estranho, rodando encostada a ele, ao ritmo duma lenta e hipnotizante msica.
A sua maneira de abraar fazia-a sentir-se cmoda e segura; o agradvel calor do seu corpo quase a obrigou a fechar os olhos...
Nicola bocejou e perdeu o ritmo, mas no mesmo instante, os braos do desconhecido seguraram-na com maior firmeza.
Depois o estranho murmurou ao seu ouvido:
- Acho que o lugar adequado para ti, neste momento,  a cama e no uma pista de dana.
Nicola levantou a cabea, que estava apoiada no ombro dele e olhou-o. Tinha acontecido, ela tinha razo. Os homens no estavam interessados no tipo de pessoa que
era... s na aparncia. Tinha que ser verdade, de contrrio,- porque  que ele, que nunca a tinha visto antes daquela noite, lhe dizia que queria ir para a cama
com ela, e no entanto, durante todos os meses em que tinha trabalhado no escritrio, nenhum companheiro tinha reparado nela, excepto Jonathan. E pelo que parecia
considerava-a aborrecida e pouco sexy... bem, se tivesse ouvido o que aquele homem tinha
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acabado de lhe dizer, no pensaria daquela maneira.
Nicola viu-se envolta por uma sensao de triunfo que, misturada com o lcool exerceu um efeito electrizante no seu corpo.
Ignorou a voz interior que a avisava que tivesse cuidado, parou de danar e olhou para o par.
- Bem, se  isso que desejas - declarou Nicola quase sem alento - e se tens a certeza de que no te importas de te ir embora to cedo...
- Ir-me embora?
Perplexa, Nicola pensou que o desconhecido no a tinha ouvido.
- Vives muito longe da cidade? - perguntou Nicola com amabilidade. - Tenho que me apresentar ao trabalho amanh de manh e...
- Nicola, porque no te juntas comigo e com a Susie?
Surpreendida, a jovem deu-se conta de que a msica tinha parado e que Jonathan estava de p junto deles.
Sem saber o que fazia, quando Jonathan tentou tocar-lhe, Nicola afastou-se dele e instintivamente encostou-se mais ao companheiro.
O desconhecido estava incomodado com a situao. Uma adolescente bbeda oferecia-lhe o corpo para fazer cimes a um "abutre" como Jonathan. Apesar de toda a maquilhagem
e do cabelo impossvel, a jovem era quase uma menina. Se a deixasse ali naquele estado, deixava-a  merc de Jonathan ou de outro homem do mesmo tipo.
- Tarde demais, Jonathan, lamento - interrompeu
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o desconhecido. - A Nicki e eu estvamos para ir embora...
Nicola olhou para ele surpreendida. Tinha-lhe chamado "Nicki..." s a sua famlia e amigos de toda a vida lhe chamavam assim. Mas ele tambm tinha dito que se iam
embora... no entanto, j no era necessrio, agora que Jonathan estava ali e a desejava. Antes que Nicola tivesse tempo de dizer alguma coisa, aqueles dedos delgados
fecharam-se sobre o seu brao, fizeram-na voltar-se e andar, virando as costas a Jonathan.
- Trouxeste casaco? - perguntou o desconhecido e ela negou com a cabea. - Era uma pena... pareceu-lhe... - pareceu-lhe ouvi-lo dizer enquanto observava o seu vestido.
- Jonathan - protestou Nicola e tentou voltar-se.
- Esquece-o. No  tipo para ti - disse o desconhecido, com firmeza. - Anda, vamos embora daqui.
Nicola estava receosa. Era bvio que estava impaciente fazer amor... de repente, a jovem sentiu muito frio. Como se tinha atrevido a sair da festa com um homem que
no conhecia? E se...?
Mas se voltasse ao salo sem ele, Jonathan continuaria a pensar que era simples, aborrecida e pouco sexy, pensou Nicola com tristeza.
O homem levou-a ao estacionamento subterrneo do hotel e sem lhe soltar o brao abriu a porta dum Jaguar. Quase a atirou, para dentro do carro e depois ps-lhe o
cinto de segurana. Fechou a
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porta e rodeou o carro para se sentar ao volante, ao lado da jovem.
O carro cheirava a couro e a algo mais... algo que Nicola achava estranho e excitante. Passaram vrios segundos antes de entender que o aroma vinha dele... ao dar-se
conta, ruborizou-se e estremeceu.
- Espero que no fiques doente, porque...
Nicola negou com a cabea.  verdade que estava um pouco enjoada e fraca, mas mais nada. O que queria era dormir, pensou enquanto saam do estacionamento.
Mal esse pensamento passou pela sua mente, Nicola apoiou a cabea no apoio do assento e fechou os olhos.
- Agora, se me disseres onde vives... - comentou ele.
Silncio. Matt franziu o sobrolho e fixou a ateno na estrada; depois olhou para a sua passageira e descobriu que estava profundamente adormecida... como a criana
que era na realidade. Quanto teria bebido? O suficiente para se transformar num perigo para ela prpria e para os outros. Se tivesse um pouco de senso comum, Matt
tinha-a deixado onde estava. Algum se teria encarregado de a levar s e salva a casa, ou no?
Ele tinha que apanhar um avio no dia seguinte de manh e a jovem representava um problema adicional de que no precisava. O problema era que se tinha sentido responsvel
por ela, talvez por ter trs irms.
Sorriu e reconheceu que j era tarde demais
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para voltar para a festa, especialmente, com um lobo como Jonathan Hendry por perto.
O melhor que podia fazer era lev-la para casa dele, p-la na cama do quarto livre e depois, mand-la embora de manh cedo, antes de partir para Nova Iorque. Nessa
altura, esperava que j estivesse suficientemente sbria e compreendesse que o seu comportamento era auto-destrutivo.
Matt tentou despert-la outra vez, ainda que soubesse que perdia o seu tempo. Nicola abriu os olhos, olhou para ele, e voltou a fech-los, antes dele poder dizer
uma palavra. Pela forma como apoiou o seu corpo contra o dele, Matt soube que estava profundamente adormecida.
Captulo 3
Nicola abriu os olhos e olhou em volta com ansiedade, pois o quarto no lhe era familiar.
A decorao era em tons cinza e branco e a janela tinha uma persiana. A cama em que estava era grande, os lenis brancos e a colcha era de riscas em cinzento e
branco.
Soube imediatamente que estava no quarto de um homem e o pnico dominou-a. Nicola endireitou-se um pouco e deu-se conta de que a nica coisa que tinha vestida eram
as calcinhas.
No fazia ideia de onde estava nem porqu. A ltima coisa que conseguia recordar era que tinha estado na festa de aniversrio do pai de Jonathan e que tinha estado
a danar com... o seu corpo retesou-se quando a lembrana comeou a passar a nvoa cinzenta que encobria os factos da noite anterior.
Nicola recordou que tinha bebido, que viu Jonathan com Susie... que o viu... gemeu em voz alta e estremeceu. O que  que tinha feito? O que  que ele tinha feito,
o estranho com quem tinha sado da festa?
Estremeceu de novo. No era assim to ingnua. S podia haver um motivo para ela ter acordado na cama dele. Os factos eram evidentes.
Nicola sentiu nuseas e uma terrvel dor de cabea;
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no entanto, fez um esforo para recordar o que tinha acontecido entre ela e aquele homem, mas foi em vo.
Nicola ficou sentada na cama, tentando ultrapassar o asco que sentia por si mesma. De repente, a porta abriu-se.
A luz do dia, ele parecia mais alto do que ela se lembrava. Era bvio que tinha acabado de tomar um duche, porque tinha o cabelo molhado e a sua pele ainda mostrava
sinais de humidade. Tinha uma toalha em volta das ancas. O seu corpo parecia duro e firme e uma linha de pelos escuros dividia o seu torso.
Trazia uma chvena com qualquer coisa quente, e quando se aproximou da cama, instintivamente, Nicola afastou-se e agarrou-se aos lenis observando-o aterrada.
- Ests acordada... Ainda bem, porque tenho que ir-me embora dentro de meia hora. Deixo-te a caminho do aeroporto. Trouxe-te ch. Se queres aspirinas, h algumas
no armrio da casa de banho.
Nicola corou quando ele se sentou na borda da cama.
A jovem podia sentir o aroma do sabonete e notou que o homem tinha acabado de fazer a barba. A sua pele tinha um aspecto firme e bronzeada, mas ao ver o corpo dele,
Nicola estremeceu e tentou no pensar em como ele...
Matthew interrompeu os seus pensamentos:
- Se sentes nuseas...
Nicola mentiu e disse qua estava bem. Evidentemente,
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ele estava habituado quele tipo de situaes, em troca ela...
Havia um espelho na parede oposta  cama e Nicola contemplou a sua imagem. Estava muito plida e tinha olheiras enormes. Franziu o sobrolho e ento apercebeu-se
de que no estava maquilhada.
Como se lesse a sua mente, ele disse:
- Lavei-te a cara.
Nicola ruborizou-se, consciente de tudo o resto que ele devia ter feito enquanto ela estava completamente bria.
Sentiu repugnncia, no s por ela mesma, mas tambm por ele. Como podia um homem fazer amor com uma mulher que no tinha conscincia dos seus actos? No entanto,
os homens no eram como as mulheres... os homens eram diferentes, perigosos e se queria ser sincera consigo mesma, ela tinha-o alentado a pensar... a achar...
Nicola comeou a tremer. De soslaio, viu que ele se aproximava dela e arqueou imediatamente as costas para o evitar.
Matt franziu o sobrolho. Aquela pequena tonta pensaria por acaso que ele...? No sabia se dar-lhe uma explicao ou comear a rir. Ela pensava mesmo...? Evocou como
ela lhe pareceu frgil quando teve que lhe pegar ao colo... a confiana com que se enroscou contra ele. Tambm evocou como lhe pareceu vulnervel quando a despiu
e lhe tirou as meias, e o seu rosto de menina quando lhe tirou a maquilhagem, antes de a deitar no quarto de hspedes. Na realidade tinha-a tratado como se
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fosse uma das suas irms e agora ela olhava para ele como se fosse um violador em potncia.
No era preciso ser muito inteligente para adivinhar o que tinha acontecido. Obviamente, a pequena tonta tinha-se apaixonado por Jonathan Hendry.
Jonathan tinha-se aproveitado da situao, sem pensar nas consequncias. Matt notou como Nicola estava aterrada e adivinhou o que pensava... Abriu a boca para lhe
explicar, mas fechou-a imediatamente. Talvez devesse deixar que ela continuasse a pensar o pior. Parecia to assustada e impressionada que se escondesse a verdade
relativamente ao sucedido, talvez isso fosse suficiente para nunca mais voltar a comportar-se dum modo to tonto. Talvez fosse crueldade agir daquela maneira...
no entanto, se isso evitasse que voltasse a portar-se com outro homem como tinha feito com ele, a longo prazo, estaria a fazer-lhe um favor.
Portanto, em vez de lhe dizer a verdade, Matt pousou a chvena, colocou as mos nos ombros de Nicola, segurou-a com firmeza e perguntou:
- O que foi? Ontem  noite no estavas assim...
Matt notou o estremecimento de Nicola, mas no se compadeceu e disse para-si prprio que era para o bem dela.
Num murmrio, Matt perguntou:
- Desiludi-te, por acaso? Sei que foi a tua primeira vez, mas parecias muito entusiasmada... especialmente depois...
Nicola no conseguiu calar o gemido que escapou
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da sua garganta. Aquilo era terrvel, insuportvel... muito pior que qualquer coisa que tivesse imaginado. No pensou que ele falasse sobre o que tinha acontecido
com tanta naturalidade como se no significasse nada. Ainda que, evidentemente, para ele no significou...
Nicola sentiu o calor da respirao de Matt na sua orelha, sabia que se voltasse a cabea ou se se mexesse... com o corpo tenso, Nicola permaneceu imvel.
- O que se passa? - insistiu Matt.
Os polegares de Matt acariciavam a pele nua de Nicola e aquela delicada frico enviava mensagens conflituosas aos seus sentidos... e ao seu corpo. Nicola abriu
os olhos, assombrada, quando os seus mamilos endureceram por baixo dos lenis. Um horrvel calafrio percorreu-lhe o corpo.
Matt viu a angstia nos seus olhos e franziu o sobrolho. Talvez tivesse levado as coisas longe demais. Talvez ela j tivesse aprendido a lio. Naquele momento,
sob os seus dedos, sentiu que Nicola ficava com pele de galinha.
O corpo de Matt reagiu antes do seu crebro, os seus sentidos despertaram antes da sua tentativa de fugir. Deslizou uma mo para a cara da jovem e segurou-a com
firmeza, para olhar para a boca dela.
Mais tarde disse para si prprio que no a teria beijado se ela no tivesse sentido pnico de repente, e no tivesse soltado o lenol para lhe cravar as unhas num
brao, numa tentativa para se libertar.
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Matt mal sentiu a presso das unhas de Nicola; em troca sentiu bem os seus seios suaves e cheios, os seus mamilos vermelhos de excitao e erectos. Antes de se aperceber
do que fazia, com a mo livre acariciou um seio, depois inclinou a cabea e beijou-a na boca.
Se Matt no tivesse adivinhado a inocncia de Nicola, a sua reaco face a ele t-lo ia provado. A jovem ficou paralisada; a sua boca tremia sob a de Matt e pela
primeira vez, ele compreendia como a sua inocncia era tentadora.
Durante uns instantes, Matt foi dominado pela urgncia de continuar, de beij-la at no ser s a sua boca que tremia, mas todo o seu corpo. Desejava tocar-lhe at
os seus mamilos se apertarem contra as suas mos... e exigirem a carcia da sua boca.
Matt tambm ficou tenso quando tentou controlar a sua resposta sexual perante Nicola. A mente torturava-o... Como reagiria ela se naquele momento ele fizesse amor
com ela... se lhe mostrasse que no era necessrio ter medo... e lhe mostrasse como...?
Nicola ainda lutava para se libertar dele, mas automaticamente. Matt usou o seu peso para a prender na cama. Ele tentava acalmar o desejo de ambos, para poder explicar
a Nicola que no tinha que ter medo, que ele s tinha querido dar-lhe uma lio... uma lio que tinha sado mal, tinha que reconhecer. Naquele momento, ela fechou
o punho e bateu-lhe no estmago.
Fisicamente, a pancada no magoou Matt, mas
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ao tentar evit-la, a toalha com que se cobria soltou-se.
Matt apercebeu-se da impresso de Nicola e praguejou entre dentes. A jovem ainda era mais inocente do que ele tinha imaginado. A qualquer momento comearia a gritar,
e tudo por querer mostrar-lhe como o seu comportamento da noite anterior era perigoso.
O que Matt no levou em conta foi a sua prpria reaco face a Nicola. Era ridculo que uma inocente jovenzinha, que definitivamente no era o seu tipo, exercesse
um efeito intenso e imediato, quando o mesmo Matt se orgulhava do seu auto-controle.
No entanto, se a deixasse agora...
Matt suspirou e aproveitou o desconcerto de Nicola para lhe segurar uma mo e deliberadamente lha abrir, antes de a erguer para a colocar sobre o seu prprio corpo.
A mo de Nicola estava gelada e o contacto comoveu-o. Ela estava muito corada e tentou afastar a mo.
Matt murmurou com voz suave:
- Olha o que fizeste. Cancelo o meu voo para Nova Iorque para podermos...?
Quando ele a soltou, Nicola olhou para todos os lados menos para ele. com voz grossa e afogada recusou o que ele sugeria.
Na realidade, Matt no fazia tenes de cancelar o voo, mas esperava que a sugesto de fazerem amor fosse suficiente para fazer aquela mida pensar.
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Ao ver a sua expresso, Matt soube que tinha que lhe dizer a verdade. Parecia doente e assustada- Os seus olhos pareciam enormes e escuros pela emoo e o seu corpo
tremia.
- Olha... - comeou Matt a dizer, mas interrompeu-se ao ouvir o telefone. - Espera um momento - pegou na toalha e atou-a em volta da cintura.
O telefone estava no outro quarto, pelo que ele saiu dali para atender. Nicola mal podia acreditar na sua sorte. Mais uns segundos...
Estremeceu dos ps  cabea, ao reviver o impressionante momento em que a toalha dele escorregou e ela viu... Como se no tivesse sido suficiente, ele tinha pegado
na mo dela para a colocar no seu corpo... naquela parte do corpo dele...
Nicola conseguia ouvir o som apagado da voz dele no outro quarto. A sua roupa estava numa cadeira, junto da janela. Ento, compreendeu que aquela era a sua oportunidade
de fugir.
Levantou-se da cama, vestiu-se, com o corao a bater com fora e o corpo a retesar-se cada vez que ouvia que o homem deixava de falar. No entanto, Nicola conseguiu
vestir-se e correu para a porta.
Necessitou de vrios segundos preciosos para encontrar a porta principal. Deu-se conta de que estava num apartamento. Demorou uns segundos a abrir, at que por fim
se viu a salvo num pequeno vestbulo com vrias portas. Em frente ficava o elevador e a escada. NicoUt decidiu descer pela
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escada e f-lo rapidamente. Ao descobrir que estava s a um andar do rs-do-cho.
O porteiro olhou surpreendido para Nicola quando ela passou por ele a correr e passou a porta que dava para a rua.
Nicola reconheceu imediatamente que estava num bairro que tinha percorrido vrias vezes com o pai.
Felizmente, tinha dinheiro na carteira e viu uma paragem de autocarro. O autocarro aproximava-se e ignorando o protesto enfadado do condutor, a jovem atravessou
a rua e subiu para o veculo, quando estava prestes a partir.
- O que acaba de fazer  perigoso, menina comentou o motorista em tom reprovador, quando Nicola pagou a o bilhete.
Nicola teve que suportar a troa e as provocaes de Jonathan, relativamente ao sucedido quando ela desapareceu com MH, que era como Jonathan se referia ao homem
que ela s conhecia como "Matt", e de quem no desejava saber absolutamente nada. Finalmente, quando comeou a acoss-la no corredor, e a exigir-lhe que contasse
o que tinha acontecido, argumentando que era impossvel acreditar que pudesse manter um homem como MH interessado nela, Nicola deu-se por vencida e foi-se embora.
O mais estranho de tudo era que desde o momento em que viu Jonathan na manh a seguir  festa, sentiu tanta repulsa por ele que no conseguiu
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compreender como lhe tinha dado tanta importncia nem porque tinha agido daquela maneira to tonta.
Nicola no suportava pensar na estupidez do seu comportamento. Cada vez que recordava o momento em que acordou... cada vez que evocava o modo como o desconhecido
lhe tocou... e a beijou... a forma como a levou a tocar-lhe... como deu a entender que durante a noite tinham feito amor no uma, mas vrias vezes, sentia-se doente...
De facto esteve fisicamente doente, pelo menos no primeiro dia.
O seu corpo foi outro motivo de culpa e ansiedade. O ritmo do seu corpo, geralmente regular e ordenado, mudou devido  tenso que comeou a domin-lo, o que a fez
passar uns dias terrveis at descobrir que no estava grvida.
Quando pde afastar a gravidez, Nicola prometeu a si mesma que nunca mais voltaria a comportar-se daquela maneira... que nunca mudaria a sua forma de ser, tentando
fingir uma coisa que no era.
Compreendeu que aquilo era justamente o que tinha que fazer, porque j no podia voltar a ser a jovem que tinha sido. J no podia manter o mesmo respeito, a f
nem a confiana em si mesma.
Nicola determinou que era uma mulher marcada, e como tal, merecia o desprezo e o desdm de qualquer homem decente. Afinal, no era uma surpresa que Jonathan pensasse
o pior dela.
Se os homens lhe faltassem ao respeito e a oIhassem como uma jovem sexualmente disponvel,
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no podia culpar ningum a no ser ela prpria. Agora via claramente as consequncias do seu comportamento. Quanto tempo passaria, antes de Jonathan ouvir da boca
de Matt a confirmao de tudo o que pensava dela? Nicola estremeceu. Sentia-se... cheia de desprezo por ela mesma, profundamente envergonhada.
Depois de trs dias, Nicola decidiu que a cidade no era para ela. Agora, a nica coisa que desejava era regressar a casa, onde se sentiria segura, onde no haveria
um Matt nem um Jonathan... e onde poderia deixar para trs o que tinha acontecido... onde conseguiria reconstruir a sua vida de tal maneira que nenhum homem se atreveria
a dizer nada dela... onde ningum se atreveria a insult-la, como Jonathan tinha feito durante os ltimos dias.
Ao fim de uma semana, Nicola demitiu-se, e muito antes de Matt regressar de Nova Iorque, foi-se embora da cidade e voltou para casa.
Matt fez algumas indagaes,  claro. Apesar da complexidade das negociaes que levou a cabo em Nova Iorque, encontrou sempre tempo para se preocupar com Nicola
pois desejava explicar-lhe o que realmente tinha acontecido.
Imaginou-a muito preocupada com o episdio e a tentar desesperadamente recordar o que se tinha passado naquela noite. Evocava a expresso de Nicola quando lhe pegou
na mo para a obriga a tocar-lhe e maldizia-se por t-lo feito.
Quando regressou de Nova Iorque, uma das primeiras coisas que Matt fez foi pr-se em
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com a Mathieson & Hendry. Mas infelizmente, a jovem em questo j no trabalhava na empresa; tinha ido viver com os pais, no campo, e no tinha deixado a morada.
Matt disse para si mesmo que, na realidade, no existiam motivos para fazer mais indagaes; era bvio que a jovem tinha aprendido a lio. Ele tinha estado ausente
mais de um ms, tempo suficiente para compreender que no haveria consequncias permanentes da suposta noite que passaram juntos.
Preferia no pensar na impresso que a jovem receberia quando descobrisse que continuava a ser virgem. E pareceu-lhe absurdo procur-la no campo
para lhe dizer isso.
Matt estremeceu um pouco ao evocar como o seu corpo tinha reagido face a Nicola. Tinha decorrido muito tempo desde a sua ltima relao sria... talvez demasiado.
Relativamente  jovem, Nicki, com um pouco de sorte, j teria compreendido os perigos dum comportamento como aquele.
Evocou a expresso de Nicki quando a beijou... o que ela sentiu... e deteve-se. Afinal era melhor no percorrer certos caminhos na vida...
Ao longe, um co ladrou e trouxe Nicola de volta ao presente. Estremeceu um pouco e esfregou a parte superior dos seus braos com dedos rgidos.
Mesmo agora, depois detodos aqueles anos, Nicola no tinha esquecido o seu horror quando
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compreendeu que ela e Matt... Matthew Hunt, tinham sido amantes e que no conseguia recordar um nico detalhe. A vergonha, a angstia e o desprezo por si mesma que
aquele conhecimento lhe causava, nunca a abandonariam.
Nicola nunca voltou a usar aquele tipo de maquilhagem, desfez-se do vestido e a permanente desapareceu; no entanto, nada conseguiu apagar a sua culpa, nem o desdm
que sentia pela sua pessoa.
Por esse motivo mantinha-se  sombra, apegava-se firmemente o comportamento que tinha fixado. Gostava da companhia das amigas, mesmo quando a conversa girava em
volta do sexo e elas faziam comentrios divertidos sobre os seus companheiros. No obstante, quando isso acontecia, Nicola tinha que guardar silncio. Por isso saa
com um homem como Gordon, que felizmente no estava interessado numa relao sexual com ela.
Por vezes, Nicola acordava a meio da noite e atormentava-se por estar condenada a viver daquela maneira, sozinha para sempre. Mas bastava-lhe evocar a forma como
se tinha comportado com Matthew Hunt... para compreender que o seu destino era a solido.
Nada mudava por repetir que s tinha feito o que milhares de raparigas tontas faziam todos os anos, pois Nicola era incapaz de perdoar a si mesma.
Recusava-se a considerar a ideia de no se castigar, apesar de saber que a sua atitude era destrutiva e perigosa, e que o mais sensato era pedir
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ajuda profissional para ver a situao com objectividade.
Enquanto ela foi a nica a saber o que tinha acontecido, sentia-se razoavelmente segura. Mas agora... Evocou a troa de Jonathan ao compreender que tinha passado
a noite com Matthew Hunt... os insultos, o que lhe chamou... a maneira como a aterrorizou, quando se apercebeu de que a chantagem mental no faria com que ela cedesse
a ter relaes sexuais com ele.
com amargura, Nicola compreendeu que era prefervel ser considerada simples, pouco sexy e aborrecida, a estar sujeita quele tipo de presso.
A jovem estremeceu e Honey, ao perceber a sua desolao, colocou o seu frio e hmido nariz na mo dela. Ela baixou os olhos e sorriu ao co.
- Oh, Honey! O que  que eu vou fazer? -murmurou e ajoelho-se para acariciar as orelhas do animal. - E se ele me reconhece... se compreende...
A tenso invadiu-a e o pnico ferrou-se no seu estmago.
Para se tranquilizar, Nicola decidiu que se no a tinha reconhecido logo, o que era bvio, ento, porque iria reconhec-la depois?
Afinal, era provvel que ele se tivesse esquecido da sua existncia. No entanto, se Matthew Hunt descobria quem era...
A nica maneira de garantir que isso no acontecesse seria demitir-se do emprego e ir-se embora. Teria que voltar a fugir;
mas tal como todas as criaturas que se sentem apanhadas, sabia que se se
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movesse, se fugia, atrairia a ateno de todos os seus conhecidos. Por isso, a sua melhor oportunidade de segurana e proteco estava no facto de no se fazer notar.
Se renunciava ao emprego, os amigos e a famlia comeariam a especular, fariam perguntas. Os pais desejariam saber qual era o problema.
Claro, podia sempre dizer que no conseguia dar-se bem com o novo patro. No entanto, os empregos interessantes, como o que agora tinha, eram difceis de conseguir
naquela zona rural e tambm no queria comear uma nova carreira na cidade.
De momento estava segura... desde que mantivesse a calma e no se trasse cometendo um disparate.
Naquela manh, durante a reunio, Matthew Hunt observou-a detidamente quando Alan elogiou o seu trabalho, mas foi um gesto duro, o olhar dum patro para o empregado,
no o de um homem para uma mulher.
Por outro lado, era pouco provvel que ele se fixasse nela como mulher. Afinal, a verdadeira Nicola era muito diferente da "Nicki" que ele mal conhecia.
Aos seus ps, Honey acariciou-lhe a perna, mostrando que j tinha estado sentado tempo demais  espera que acontecesse alguma coisa. Eram horas de voltar para casa.
- O passeio foi agradvel? - perguntou a me quando Nicola abriu a porta da cozinha. - O teu
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pai acabou de chegar, por isso no demoro a servir o jantar. Oh, a propsito, Christine ligou. Pediu-me para te lembrar que na prxima semana jantas com eles...
Nicola assentiu. Christine era uma das suas amigas mais antigas. Mike, o marido dela, era advogado e havia pouco tempo que trabalhava na aldeia. Tinham dois filhos
pequenos. Alm de cuidar dos filhos, tratar da casa e do jardim, Chrissie tambm ajudava Mike com a papelada, em casa.
Formavam um par feliz e Nicola apreciava sempre o tempo que passava com eles, apesar de em algumas ocasies sentir inveja do evidente amor deles.
Durante o jantar, o pai de Nicola, perguntou-lhe que opinio ela tinha do novo patro. O seu corao comeou a bater a grande velocidade e fixou a vista no prato.
Sabia que se levantasse os olhos, o pai saberia os seus verdadeiros sentimentos.
J comeava o engano, a ansiedade.
- Parece muito bem informado... muito eficiente - respondeu.
- Mmm... pelo que ouvi, tem cheiro para as boas oportunidades. com ele  frente, a empresa comear a subir.  ele mesmo que vai dirigi-la ou...?
- No - interrompeu Nicola. - Vai nomear um gerente... uma pessoa dasua confiana. Ainda no sabemos quem.
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- Suponho que ficars directamente sob as ordens desse gerente - comentou a me.
Nicola assentiu. Aquele era o nico pensamento agradvel... Matthew Hunt estaria pouco tempo com eles.
- Pergunto-me quantos anos ter e se ser casado...
Nicola pousou o garfo e a faca.
- Mam... - comeou a dizer.
- Desculpa, Nicki. Quando eras adolescente, prometi no me transformar no tipo de me que est sempre  procura do potencial pai dos seus netos, mas quando olho
para Gordon... - encolheu um pouco os ombros. - O que  que vs nele? Quanto  me dele...
- Gordon  um amigo, me... nada mais assegurou com firmeza Nicola.
- Mmm... no entanto, esse novo gerente... pergunto-me como ser - continuou a me, sem desanimar.
Captulo 4
A me no era a nica a ter curiosidade quando ao novo gerente, como Nicola descobriu na manh seguinte, quando foi para o trabalho.
A breve visita que Matthew Hunt lhes fez no dia anterior no se repetiria at sexta-feira, o que representou um alvio para Nicola. At l, Alan continuaria a ser
o seu patro.
No dia anterior, Nicola quase teve a certeza de que a deciso de comprar a empresa tinha sido repentina, visto ter que procurar algum responsvel entre o seu pessoal,
a quem poder confiar a sua nova aquisio.
A notcia da mudana de dono foi um incentivo para os empregados. Falava-se na melhora dos salrios e das condies de trabalho, agora que faziam parte duma organizao
muito maior. Alan optou por no fazer uma festa de despedida e Nicola compreendia que a ocasio o fizesse sofrer.
No entanto, pensava que era muito triste que depois de ter falado toda a vida naquela companhia criada por ele, Alan preferisse sair simplesmente do escritrio na
sexta-feira, sem qualquer reconhecimento da parte dos que trabalharam com ele.
Na tera-feira, durante todo o dia, sentiu-se uma atmosfera de tenso,
pois na quarta-feira de
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manh, Matthew Hunt apresentaria o prximo chefe... o novo gerente.
Ao contrrio dos outros, Nicola esteve muito ocupada na tera-feira. Gentilmente, insistiu com Alan para verificar a correspondncia mais recente, para poder fazer
os relatrios de cada contrato.
Nicola amava o seu trabalho e quanto mais responsabilidade Alan lhe dava, mais o apreciava. Tinha uma grande capacidade para o trabalho administrativo, e ainda que
poucas pessoas o soubessem, graas  sua habilidade para acompanhar a correspondncia de cada cliente, a firma no tinha perdido alguns contratos importantes.
Evidentemente, Nicola queria causar boa impresso ao homem que seria o seu novo patro, e no s para seu prprio bem, como tambm pelo de Alan. Por lealdade para
com ele, estava decidida a que o novo gerente recebesse um relatrio exacto e actualizado.
Cada vez que Nicola entrava no gabinete de Alan, este parecia ter ainda mais papis nos arquivos. A jovem determinou que teria que fazer horas extra e lembrou a
Alan que tinha que tratar de tirar a sua secretria do gabinete.
Era um mvel antigo, que Alan tinha comprado quando formou a empresa, e Nicola suspeitava que agora valia bom dinheiro.
Alan sorriu-lhe.
- No bungalow no h espao para a secretria; alm disso... - tocou a madeira... - com que objectivo?
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Nicola estava quase a chorar. Se Alan no a levava, pediria ao pai para guardarem a secretria, pois tinha a certeza de que com o tempo, Alan lamentaria t-lo abandonado.
Na tera-feira  noite, quando Nicola chegou a casa, suja e cansada, a me comentou:
- Vens muito tarde.
- Mmm... estivemos a limpar o gabinete do Alan, a prepar-lo para o novo gerente... O Gordon telefonou?
Era suposto ela e Gordon irem a um concerto, e Nicola esperava, no com muito entusiasmo, confirmar a hora em que iria busc-la.
- No, enquanto estive em casa - respondeu a me.
Depois de tomar um duche, Nicola vestiu uns jeans e uma blusa. Depois, marcou o nmero de casa de Gordon.
Por vezes, Nicola pensava que ela e Gordon eram pessoas anormais para a poca deles, visto que ambos ainda viviam com os pais. No entanto, tambm sabia que era preciso
ser rico para comprar uma casa, pois os preos estavam pelas nuvens.
Claro que, aos trinta e quatro anos, Gordon podia ter a sua prpria casa, pois tinha um bom emprego numa companhia de seguros, mas, como uma vez explicou a Nicola,
a me era viva e estava doente com frequncia, pelo que ele pensava que devia viver com ela.
Nicola tambm podia comprar uma casa, mas
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gostava de viver com os pais e apreciava a companhia deles.
A me de Gordon atendeu o telefone e o seu fraco murmrio endureceu um pouco ao reconhecer a voz de Nicola.
- O Gordon est a comear a jantar - informou em tom reprovador - por isso, espero que no o entretenhas muito.
Nicola suspirou. Quando Gordon respondeu ao telefone, parecia tenso e hesitante. Quando Nicola lhe lembrou o concerto, ele ficou calado um momento e depois falou
rapidamente:
- Lamento, mas no posso ir... sabes... a mam no se tem sentido bem todo o dia, e acho que devo ficar aqui, com ela...
Nicola no tinha muito interesse em assistir ao concerto. Tinha sido ideia de Gordon, no entanto, quando desligou o telefone estava irritada. Porque  que Gordon
no lhe tinha ligado a avisar que no sairiam nessa noite? Porque tinha deixado que fosse ela a pr-se em contacto com ele? E quanto  suposta doena da me dele...
Seguindo um impulso, Nicola pegou no carro e foi a casa da sua amiga Christine. Disse-lhe logo que estava irritada com o Gordon por no lhe ter ligado para dizer
que o encontro daquela noite tinha sido cancelado.
- Porque te preocupas com ele? - perguntou Christine. - Vamos, Nicki, no tentes dizer-me que ele faz o teu corao bater com fora, ou que o amas at  morte...
vi-te ao lado dele.
Nicola teve que rir.
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- No, talvez no - concordou Nicola.
- Ento, porqu? - voltou a perguntar Christine, mas Nicola mudou de assunto.
J era tarde quando Nicola voltou para casa, no entanto, tinha-lhe feito bem visitar a amiga. Apesar disso, quando estava prestes a adormecer, a ansiedade comeou
a domin-la. No dia seguinte conheceria o seu novo patro e voltaria a ver Matthew Hunt.
- Matthew Hunt est aqui, mas veio sozinho anunciou Evie com entusiasmo, enquanto entrava no gabinete de Nicola.
Nicola j tinha visto chegar Matthew. Naquele dia, no conduzia o velho Land Rover, mas um caro Jaguar.
Enquanto o observava caminhar para o edifcio dos escritrios, Evie perguntou a Nicola:
- No o achas o homem mais sexy que viste na tua vida? Chega olhar para ele... e com aquele fato fica maravilhoso.
Nicola escondeu um ligeiro sorriso. Matthew Hunt era, na realidade, um homem muito atraente. Afastou-se da janela, impressionada com a sua reaco a ele, e mal ouviu
a animada conversa da sua assistente. Evie tinha ouvido dizer que o facto de Matthew ter comprado a empresa implicava uma modernizao dos meios de trabalho.
A jovem perguntava a Nicola se era provvel que utilizassem computadoresem vez de mquinas
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elctricas, quando a porta se abriu e Matthew entrou.
Sorriu a Evie, que corou e a Nicola s dirigiu um olhar agudo.
Nicola usava o que considerava o seu uniforme de trabalho, que consistia num fato de saia e casaco, blusa branca e um cinto largo vermelho escuro, que combinava
com as riscas do fato.
- O Alan est? - perguntou Matthew. Nicola negou com a cabea.
Alan tinha ido visitar um cliente que se queixava do atraso nos trabalhos. No entanto, a lealdade para com Alan fez com que Nicola escondesse aquela informao,
ao explicar a sua ausncia. De repente a boca de Matthew endureceu um pouco e disse imediatamente:
- Espero que nesse contrato no tenhamos clusula de cumprimento da obra num certo prazo. J estamos atrasados demais. O que me lembra... o encarregado, Jackson...
quero falar com ele quando for possvel...
- Quer um caf, senhor Hunt? - interrompeu Evie.
Aquele sorriso provocou em Nicola uma estranha dor interior. Era o sorriso indulgente dum adulto para uma jovem bonita, ento Nicola compreendeu que nenhum homem
a tinha olhado daquela forma e nunca o faria.
Nicola disse a si mesma que no devia ser ridcula. J no era uma mida, e sim uma mulher  adulta, igual a qualquer homem e no desejava
ser tratada com indulgncia.
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- Matthew, por favor, Evie - corrigiu ele, recordando-lhe que j lhes tinha dito que deviam cham-lo pelo nome prprio. Olhou para Nicola e perguntou: - Quando
voltar o Alan? - No tenho a certeza. Acho que antes do almoo - respondeu Nicola. - Mmm bem, enquanto o espero, verificarei o correio. Pode dar-mo, Nicola...?
- fez uma pausa e olhou de novo fixamente para ela antes de entrar no gabinete de Alan e fechar a porta, Nicola ordenou o correio, pegou na chvena de caf que
Evie levava e bateu  porta. Matthew no estava sentado  secretria mas sim de p, junto da janela e olhava para o jardim. Sem voltar a cabea, disse-lhe:
- Senta-te, por favor, Nicola. H uma coisa que quero discutir contigo. Oh, fecha a porta, por favor.
O corao de Nicola comeou a bater com fora. Afinal, ele tinha-se recordado, e agora, ia dizer-lhe... ia recrimin-la pelo que tinha feito... e ficaria sem trabalho. 
Nicola sabia isso.
Trmula, obedeceu e sentou-se, desejando no parecer demasiado nervosa.
- Trata-se do Alan - informou Matthew, sem se voltar. - No se organizou nenhuma despedida.
Durante um momento, Nicola ficou surpreendida demais para conseguir falar. Ele no a tinha reconhecido. Sentiu alvio. Queria falar sobre a partida de Alan da empresa,
no sobre a dela. De repente, Matthew perguntou:
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Sentes-te bem?
Nicola viu-o dirigir-se para ela e encolheu-se na cadeira, o que fez com que ele se detivesse e olhasse para ela, preocupado.
- Estou, sim, estou bem - balbuciou Nicola.
- S... - sacudiu a cabea, tentando aclarar a sua mente, voltar  normalidade. - Alan... Alan quer assim. Sabes com certeza o que aconteceu ao filho dele... dadas
as circunstncias...
- Dadas as circunstncia,  pelo menos necessrio um reconhecimento por todos os anos que dirigiu a empresa, pelo que o pessoal devia juntar-se para lhe dar uma
recordao.
Pelo seu tom de voz, Nicola suspeitou que estava a critic-la por no ter pensado numa coisa assim. Perdeu o medo e, com orgulho, disse:
- Isso j est a ser organizado.
Assim que soube que Alan se retirava, Nicola promoveu uma colecta. com esse dinheiro, dariam a Alan uma taa, gravada  mo mencionando todos os anos que fora dono
da empresa e o nome dele. Nicola explicou a Matthew que s faltava marcar a data em que dariam a taa a Alan e acrescentou:
- Evidentemente, terei que falar com o novo gerente. Pensei que talvez pudesse ser sexta-feira  tarde.
- No vejo problema nisso - garantiu Matthew - podia organizar-se um bufete informal, se no for tarde demais. A propsito - bebeu o caf
- no haver gerente... pelo menos de momento...
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o homem que tinha escolhido est doente e precisa de descansar.
- Quem dirigir a empresa? - perguntou Nicola com preocupao.
Ele pousou a chvena e estudou-a com calma.
- Eu - informou.
Nicola agradeceu estar sentada, de outra maneira, tinha-se denunciado.
Depois de um momento, ele acrescentou:
- Acho que tu e eu trabalharemos muito bem juntos, Nicola -confundiu-a ao acrescentar. Agrada-me o teu esprito de iniciativa e os teus conhecimentos... a tua compaixo
pelos seres humanos. Isso  necessrio e actualmente, de muito valor.
Sorriu-lhe, ainda que no fosse o mesmo tipo de sorriso que dirigira a Evie; era um gesto de afecto e aprovao. Nicola ficou impressionada com o calor que sentiu
no seu corao quando Matt lhe sorriu.
 medida que a semana decorria e Nicola trabalhava mais perto de Matthew, descobriu aspectos dele que nunca imaginou que existissem. Em lugar de ser o homem de negcios
insensvel que ela tinha imaginado, descobriu que se interessava pelos seus empregados, ainda que no permitisse que ningum se aproveitasse dele.
Ele j estava a par de quem trabalhava duro e de quem no o fazia e, ainda que no tenha dito nada concreto a Nicola, ela suspeitava que no
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passaria muito tempo at o encarregado ser substitudo.
Nicola gostava de trabalhar com ele, pois fazia-lhe perguntas sobre os contratos existentes e ouvia as suas respostas. Consultava-a sobre os seus planos para aumentar
os clientes e discutia com ela alguns aspectos do negcio, pelo que Nicola sentia que as suas opinies e pontos de vista eram valiosos.
Na realidade, se no fosse o seu constante medo de que algum dia ele a reconhecesse, tinha que admitir que gostava de trabalhar com ele.
Matthew comentou que tinha um ajudante muito hbil, capaz de se encarregar do controle das suas empresas, enquanto ele punha em p o novo negcio.
- Na realidade, vai fazer bem a Giles e a mim. Pensei em propor-lhe ser meu scio.  o noivo da minha irm mais nova - Matthew sorriu. - Ainda que no seja esse
o motivo porque quero faz-lo meu scio... Chega um momento em que dirigir um negcio como este se converte numa forma de vida, em vez de ser parte da vida. E, ainda
que goste do meu trabalho, no desejo que ocupe toda a minha vida. Um dia, espero casar e ter filhos, e quando o fizer... bem, digamos que no fao tenes de ser
um marido ou pai ausente - fez uma pausa. - Tens planos para te casar, Nicola?
Nicola negou com a cabea, pois no confiou na sua voz. Era bom que o passado representasse uma barreira entre eles, pois de outra maneira, suspeitava que poderia
estar muito perto de cair outra
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vez na armadilha e deixar-se apaixonar por aquele homem atraente.
Poderia apaixonar-se por ele? Isso era impossvel, ela era sensata demais para cometer esse tipo de tolice, ainda que o seu corao batesse mais depressa quando
levantava os olhos do trabalho e dava com ele a observ-la.
Se era suficientemente ingnua para acreditar que ele a olhava daquela maneira porque se sentia atrado por ela, Nicola s tinha que evocar o passado para compreender
como era tonta.
Claro que era possvel que, com o passar do tempo, a sua perspectiva da vida tivesse sofrido uma mudana e que agora, ele evitasse o sexo casual. No entanto, para
Nicola era difcil acreditar que o homem que conhecera no passado, fosse o mesmo homem que agora era seu patro e que se mostrava preocupado e compassivo.
Alan passou a ltima semana na empresa a despedir-se de alguns dos seus antigos clientes, mais por insistncia de Matthew que por iniciativa prpria.
- Isso afastar da sua mente o trauma que est a sofrer - disse Matthew a Nicola. - Tambm nos dar tempo para organizar o bufete de sextafeira. Pedi ao Alan que
ficasse como consultor; esta empresa foi a vida dele, e suspeito que ser muito difcil para ele habituar-se a viver sem ela.
- Ele e a Mary vo-se embora daqui; compraram um bungalow na costa...
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- Sim, j sei, e espero que ele no se arrependa... Afastar-se do lugar onde sempre viveram... afastar-se dos amigos...
- Tm uma filha casada e vivero mais perto dela e dos netos - informou Nicola. - Acho que ambos esperam que o facto de estar com os netos os ajude a afastar a tragdia
das suas mentes...
Durante um momento, ficaram ambos calados.
- Penso frequentemente, que um dos sofrimentos mais difceis de suportar...  a morte dum filho. Agora, sobre a reunio... ouvi dizer que no haver discurso formal.
Disseste que o Alan especificou que no desejava alvoroo. Achas que o incomodar que eu esteja presente?
A sua sensibilidade surpreendeu Nicola.
Nessa noite, quando a me lhe disse que ela parecia mais animada desde que trabalhava com o novo patro, a jovem ruborizou-se e mordeu o lbio inferior.
- Ouvi dizer que  muito atraente - acrescentou a me, ao que parecia, sem notar a confuso de Nicola.
- Muito - concordou com voz rouca.
- E solteiro.
- Sim - respondeu Nicola e mudou de assunto. - O Gordon ligou? Esta tarde vamos jogar tnis.
- No - respondeu a me - mas eu estive fora a maior parte da tarde.
Nicola ia telefonar-lhe, mas, de repente, decidiu no o fazer. Porque tinha que ser ela a telefonar
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quando ele  que tinha tido a ideia de ir jogar tnis?
Voltou a sentar-se e serviu-se duma chvena de ch.
Nicola pensou que, com demasiada frequncia, era ela que se punha em contacto com Gordon, em vez de ser ao contrrio.
Gordon ligou depois das oito, meia hora depois de quando devia ter ido busc-la.
Como sempre, Gordon respondeu-lhe com voz aguda e  defesa.
Depois de aceitar a explicao dele de que se tinha atrasado no trabalho, e a desculpa por no ter ligado, Nicola lembrou-lhe:
- Anotaste que na sexta-feira tens que ir buscar-me ao trabalho, Gordon?
Nicola pensava levar o carro dela ao mecnico nessa semana e Gordon tinha-se oferecido para ir busc-la e lev-la  oficina para ir buscar o carro.
- Claro que sim - respondeu Gordon com voz dorida.
Depois de desligar, Nicola pensou na possibilidade de acabar com a relao deles. Na verdade, nos ltimos dias no sentia prazer na sua companhia e suspeitava que
Gordon sentia o mesmo. Os beijos sbrios que antes partilhavam tinham-se transformado num beijo rpido na face, se Nicola tinha sorte. Gordon tinha sido um companheiro
cmodo nas reunies sociais, mas, de repente, ela tomou conscincia de como aquela relao era estril e aborrecida.
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Comparou Gordon com Matthew... Tinha a certeza de que este no cancelaria os seus encontros dando como pretexto a sade da me; tambm tinha a certeza de que no
dava beijos rpidos e ridos na face, ao terminar o sero. Durante os seus encontros, ele devia ser...
Imediatamente, tentou deter aqueles pensamentos perigosos. Comeou a tremer e sentiu um profundo anseio, uma necessidade desesperante... emoes que tinha jurado
nunca sentir, e que agora, de repente, explodiam no seu interior e se negavam a desaparecer.
Nessa manh, quando Nicola chegou ao trabalho, encontrou Matt com o sobrolho franzido e
em p - junto da secretria dela.
- Desculpe, cheguei tarde? - perguntou a jovem ao entrar.
A expresso dele abriu-se imediatamente.
- Pensaste que estava irritado contigo? - perguntou Matt. - Se  assim,  bvio que no te causei muito boa impresso... No, estava s um pouco preocupado por causa
dum telefonema que recebi de um dos nossos clientes. Parece que o Jackson tem andado a roubar material, ou pelo menos  o que este homem pensa.
lan Jackson era o capataz. O corao de Nicola estremeceu. A queixa do cliente no a surpreendeu, mas sim o facto de no haver mais. H muito tempo que ela suspeitava
que lan Jackson estava
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relacionado com o roubo de material que algum realizava na empresa, mas Alan nunca pareceu preocupar-se com o assunto.
- Preciso de ir  obra e averiguar o que se passa - disse Matthew. - Ests ocupada, ou queres ir comigo?
Nicola olhou para ele e corou um pouco; ento ele acrescentou com voz seca.
- Est bem, no s obrigada a vir. S pensei que gostasses duma mudana, de deixar de ler o correio...
A referncia que fez ao trabalho extra que Nicola tinha feito para pr em dia os arquivos, surpreendeu-a. No sabia que ele estava a par das horas extra que ela
fazia. Isso f-la sentir afecto por ele, em especial ao evocar que no princpio ela tinha pensado que ele a achava antiptica. Agora suspeitava que esse receio tinha
nascido do medo que a reconhecesse.
- Bem, se tens a certeza de que no serei um estorvo - aceitou, em tom hesitante.
Matt verificava alguns papis no escritrio. Subitamente endireitou-se e voltou-se, para olhar para Nicola dum modo que fez o corao dela dar um pinote e bater
com fora.
- Duvido que algum homem chegue a considerar-te um estorvo, Nicola. Evidentemente, eu no considero.
Vindo de outro homem, Nicola teria tomado aquele comentrio como um piropo, mas parecia
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impossvel que Matthew coqueteasse com ela. Depois de um momento, Nicola conseguiu dizer.
- vou buscar o meu casaco.
Nesse dia, Matt conduzia o Land Rover e Nicola deu graas por ter posto uma saia plissada que lhe permitia subir para o veculo sem ajuda. No entanto, Matt manteve-se
delicadamente  porta do passageiro, para a ajudar a subir.
Estava a fechar a porta, quando ele a deteve e colocou uma mo no seu brao, depois inclinou-se e retirou a ponta da saia da porta.
- Tens punhos e tornozelos incrivelmente delicados - comentou Matt e sorriu-lhe para os olhos.
- H qualquer coisa nesse tipo de fragilidade numa mulher, que faz com que um homem se sinta imediatamente protector - ainda tinha a mo apoiada no brao de Nicola.
Ento Nicola teve uma clara evocao de como ele a tinha abraado na noite da festa, de como parecia forte e como a fez sentir-se vulnervel...
Nicola estremeceu e afastou-se dele. O seu rosto ficou lvido.
Imediatamente, Matt soltou-a. Fechou a porta e ocupou o seu lugar.
Matt conduziu at s obras em silncio.
Por um momento, Nicola esqueceu o passado... esqueceu tudo menos a sensao que a invadia cada vez que Matt olhava para ela.
Porque reagiria daquela maneira na presena dele? Sabia que era um homem muito atraente,
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mas tinha conhecido outros, e nenhum tinha conseguido emocion-la daquela maneira.
O motivo seria por acaso, mais profundo e pessoal? Seria que o seu corpo, por instinto, o recordava? Seria...? Mas no. Se ela no podia.lembrar-se do que tinha
acontecido entre eles, o seu subconsciente tambm no podia faz-lo e muito menos alter-lo.
Impressionava-a que, depois de anos a acreditar que sexualmente tinha um completo domnio de si mesma, de repente comeasse a reagir daquele modo e especialmente
com aquele homem... o homem perante o qual no devia faz-lo.
E tudo porque ele lhe tinha feito um elogio, porque por um segundo contemplou a sua boca como se... Nicola mal podia respirar. Como qu? como se ele imaginasse o
seu sabor... a sensao dos seus lbios debaixo dos dele...
com desespero, Nicola disse para si mesma que devia reprimir aqueles pensamentos. O que  que estava a acontecer? Porque  que as suas emoes a traam assim?
O Land Rover deteve-se e Nicola compreendeu, surpreendida, que tinham chegado  obra. Tentou abrir a porta e descer, mas Matthew deteve-a.
- Cuidado. H lama por todo o lado e  fcil escorregar. Espera um segundo que te ajude a descer.
Nicola tremeu muito antes dele abrir a porta e colocar as mos na sua cintura, para a levantar e colocar em terra firme.
Captulo 5
- Ests bem?
A voz de Matt soou cortante. Nicola sentiu que uma onda de calor queimava-lhe a pele e respondeu afirmativamente.
Sabia que com certeza Matt lamentava t-la convidado ir com ele. O seu comportamento era o de uma menina assustada.
lan Jackson viu-os chegar e comeou a andar para ele. com desafio e arrogncia olhou para Matthew, antes de parar em frente dele. O olhar que dirigiu a Nicola f-la
desviar o olhar. Sentia-se sempre incmoda, envergonhada e culpada, quando os homens olhavam detidamente para ela, especialmente quando esse olhar era acompanhado
por uma atitude de desprezo, como a de lan Jackson naquele momento. A forma como olhou para ela f-la desejar voltar-se e fugir. Sentiu-se ameaada e vulnervel;
como se algo que ela tivesse feito fosse a causa da atitude de Jackson...
Nicola sabia que aquele receio podia atribuir-se directamente  noite em que conheceu Matthew e que tinha as suas razes no seu prprio comportamento naquela ocasio.
Nicola surpreendeu-se quando Matthew se aproximou e quase se colocou entre ela e Jackson como se desejasse dar-lhe segurana, proteg-la...
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Nicola disse para si prpria que estava outra vez a fantasiar, que se permitia emoes que no tinha o direito de sentir.
A presena de Matt confundia-a e alarmava-a. Quando se afastou, tentando por instinto distanciar-se no s fsica como tambm mentalmente da sua prpria reaco
emocional, Matt voltou a cabea e olhou para ela.
Foi um olhar rpido que a fez ter conscincia de si mesma como mulher e dele como homem.
Nicola decidiu que a sua actuao era ridcula e desviou os olhos dele. Estava a permitir que o passado influsse no seu julgamento.
Matthew falava com lan Jackson, explicava-lhe com frieza e cinismo as queixas que tinha recebido.
lan comeou a defender-se fazendo referncias veladas  sua influncia sobre os homens e ao facto de que certas "coisas" eram uma tradio no trabalho.
Matt recusou-se a ceder e Nicola no pde deixar de admirar a firmeza com que ele manejava a situao.
Quando finalmente saram da obra, o capataz no ficou com dvidas sobre quem ejstava agora  frente da empresa nem de como Matt esperava que os seus empregados desempenhassem
o seu trabalho.
Quando se dirigiam para o Land Rover tiveram que passar em frente dum grupo de homens. Instintivamente, Nicola fez um rodeio para evitar estar demasiado perto deles,
(guando chegou ao
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carro, notou que Matt a observava dum modo estranho.
A jovem corou. A necessidade de manter a maior distncia possvel entre ela e o sexo oposto era um hbito, mas no porque temesse ser atacada ou que se dirigissem
a ela, no. O motivo do seu comportamento era produto daquela noite com Matthew e do auto-desprezo que nasceu nela... um desprezo que foi reforado pelos ofensivos
comentrios de Jonathan, depois do que tinha acontecido.
Nicola afastou o olhar de Matt o seu corao batia com fora e medo.
Notou a curiosidade nos olhos dele, que continuava pensativo... Soube que Matt se tinha apercebido dos seus movimentos sem coordenao, da sua tenso ao apressar-se
a passar perto do grupo de homens, que a observavam.
Quando chegaram ao Land Rover, o nervosismo de Nicola tinha aumentado. Sem se importar que pudesse parecer ser pouco elegante, meteu-se depressa no carro. Matt sentou-se
ao volante, a seu lado.
Iam a metade do caminho, de regresso ao escritrio, quando Matt declarou:
- Se algum dos homens da empresa molestar o pessoal feminino, gostaria de saber. No s porque me repugna que os homens submetam as mulheres a situaes embaraosas
e intimidantes, que elas no desejam, como tambm porque pode existir uma ameaa muito real de perdermos algum negcio por causa dessa atitude.
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Nicola negou com a cabea, pois sabia que aparte o capataz, os outros homens no eram agressivos nem tinham modos desagradveis.
- Eles... todos eles, so muito agradveis afirmou Nicola com voz rouca.
Houve um silncio curto, antes de Matt perguntar:
- Isso inclui Jackson?
Quando Nicola voltou a cabea, ele olhava para ela com tanta intensidade, que a fez desejar poder contar-lhe a verdade. Um sentimento de profunda e intensa tristeza
invadiu-a.
- lan no  uma das minhas pessoas favoritas
- concordou Nicola e acrescentou imediatamente
- mas os outros.-..
Matt no lhe permitiu terminar.
- Esse tipo de atitude num homem, em especial em algum que ocupa o posto que ele tem, pode influir com facilidade demais nos outros e no vou permitir isso. Como
disse, poderia afectar-nos adversamente nos negcios.
- Os homens respeitam-no - disse Nicola. No ser fcil substitu-lo.
- Posso deslocar algum de uma das minhas empresas. No entanto, no 
necessrio chegar a isso, se ele mudar de atitude...
Nicola suspeitou que o capataz no mudaria. Era um homem arrogante, habituado a dominar todos os que o rodeavam. Era um homem que gostava de humilhar os mais fracos,
em especial as mulheres.
Nicola sentia-se confusa. Mais uma vez, a atitude
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de Matt no era de esperar de um homem que... Era difcil acreditar que aquele homem e o que agora estava sentado a seu lado fossem o mesmo.
Nicola pensou que oito anos era tempo suficiente para que uma pessoa pudesse mudar.
Surpreendia-a o muito que gostava de trabalhar com Matt, mas ainda a dominava o medo de que pudesse acontecer alguma coisa e ele olhasse para ela e... a reconhecesse...
e ento, tudo aquilo porque tinha lutado, todo o tempo e o esforo que dedicou para garantir que nunca mais voltaria a passar pela humilhao e a sofrer o trauma
que sentiu ao acordar na cama dele naquela manh, ficariam destrudos.
Matt parou o Land Rover no jardim da entrada e ordenou-lhe com firmeza:
- Fica aqui.
Nicola obedeceu. Tremia um pouco quando ele abriu a porta do carro e a ajudou a descer e no pde evitar encolher-se um pouco quando lhe tocou. Por um momento, Matt
ficou tenso, talvez ao aperceber-se da sua reaco fsica, mas no disse nada.
- Ouvi dizer que tens um noivo formal - disse Matt subitamente.
Quem lhe teria falado de Gordon? E porqu? Ele dirigiu-lhe um olhar sombrio que parecia expressar solido.
-  um homem com sorte - assegurou Matt, surpreendeu-a.
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Matthew voltou-se e dirigiu-se para a entrada dos escritrios. Nicola ficou a observ-lo.
Teria por acaso querido dizer que invejava Gordon? Era impossvel. Matt no podia ter problemas para encontrar companheira.
Implicar que a desejava...
Um estremecimento de terror percorreu o seu corpo. E se era s um jogo? Estaria Matt a divertir-se com ela e cruelmente deixava-a acreditar que no se lembrava dela,
quando na realidade...?
Nicola estremeceu de novo, mas com mais fora... No. O que acontecia era que ela permitia que o seu medo ficasse fora de controle. Porque iria Matt comportar-se
daquela maneira? No entanto, sugerir que a achava atraente, desejvel, que invejava Gordon...
Atravs dos anos, houve homens que tentaram conhec-la melhor, mas Nicola afastou-os sempre, pois temia os problemas que a intimidade pudesse trazer. com Gordon
estava a salvo. Nenhum dos dois desejava, na sua relao, mais do que j tinha.
A vida de Gordon era dominada pela me, o que, suspeitava Nicola, teve como resultado uma represso quase completa da sua sexualidade. Em troca, a vida dela era
dominada pela culpa e a angstia do passado, o que a reprimia duma forma quase eficaz.
Se se atrevesse a apaixonar-se, Nicola teria que confessar o seu passado... explicar... porque ela queria ser sincera com o homem que amasse. No entanto, ao faz-lo
correria o risco de que o homem se afastasse com o mesmo desprezo que Jonathan
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demonstrou, e isso era uma coisa que no podia suportar, por isso o melhor seria no correr riscos.
Aterrava-a admitir que Matt era um homem por quem poderia apaixonar-se com facilidade, se o passado no estivesse entre eles e o que mais a amedrontava era a sua
prpria reaco fsica face a ele.
Muito devagar, Nicola seguiu-o at aos escritrios e disse para si prpria que quando o novo gerente chegasse e Matt s os visitasse ocasionalmente, poderia recuperar
o controle da sua vida e das suas emoes. Entretanto, teria que aprender a viver com aquele caos.
Na sexta-feira, Nicola saiu de casa um pouco mais cedo que de costume, para poder deixar o carro na oficina e chegar a tempo ao escritrio.
Todos menos Alan, tinham sido avisados da reunio e do bufete. Matt trataria de levar Alan a tempo, e Nicola no duvidava de que o faria.
Enquanto ela verificava a correspondncia, entraram trs homens para desmontar a secretria de Alan.
Matt tinha perguntado o motivo pelo qual Alan no levava a secretria e comentou a sua antiguidade e valor, mas Nicola explicou as razes dele.
- Bem, a deciso  dele, mas  uma coisa que mais tarde vai lamentar. Acho que devemos guard-la para o caso de mudar de ideias.
Aquela deciso era to parecida com a que ela
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tinha tomado, que a jovem tremeu um pouco com a emoo. Sabia que o novo gerente teria um gabinete novo, alm de um conjunto de computadores do mais avanado, que
ela teria que aprender a usar. A confiana que Matt tinha mostrado, levantou o moral de Nicola, ainda que tambm a intranquilizou um pouco.
As onze, quando os assuntos mais urgentes estavam solucionados, Nicola disse a Evie:
- vou ver se est tudo sob controle.
- A que horas trazem o bufete! - perguntou Evie.
- s onze e meia.
Foi Matt que sugeriu que se contratasse um servio de bufete, no sem antes esclarecer que era ele que pagava.
O bufete chegou mesmo  hora. Tinham colocado mesas num armazm, e estava um dia quente. O cheiro a madeira, que se guardava ali, era muito agradvel.
Nicola olhou em volta e perguntou-se como se sentiria Alan. Ia ser um dia muito traumtico para ele, pois marcava o fim da sua relao com a empresa que ele prprio
tinha criado, e talvez o facto de aceitar finalmente que o filho, tinha morrido.
A jovem dirigiu-se para a porta e os seus olhos encheram-se de lgrimas ao pensar na dor de Alan.
- Ests bem, Nicola? - impressionada pelo sbito som da sua voz, a jovem levantou a cabea e descobriu que ele estava a poucos metros e que olhava para ela preocupado.
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Vestia jeans e camisa, com as mangas arregaadas.
Uma inesperada sensao percorreu Nicola e destruiu o seu frgil auto-controle. Quase no mesmo instante, viu-se transportada ao passado.
Matt voltou a falar:
- Nicola?
Ela tremeu enquanto lutava para apagar as recordaes, mas no se deu conta de que estava a chorar.
- Porque  que choras? Algum...?
Nicola fixou o olhar nele e negou com a cabea.
- No, no h nada de errado - assegurou. S pensava em Alan, em como deve sentir-se hoje
- mentiu. - Onde  que est? - perguntou com ansiedade. - Ainda no  meio-dia e...
- Eu sei. Deixei-o na obra de Waddington. Desculpei-me dizendo que tinha um encontro. Disse-lhe que o apanharia mais tarde. vou para casa mudar-me, mas quis vir
antes para me assegurar de que no havia problemas.
Ao princpio, Matt tinha-se hospedado num hotel, mas agora vivia numa casa alugada, que ficava a vrios quilmetros da aldeia.
Matt observou-a e voltou a perguntar:
- Tens a certeza de que ests bem?
Um dos empregados aproximou-se da porta e instintivamente, Nicola afastou-se do caminho. Matt moveu-se com ela, pelo que ficaram ambos na sombra, o que lhes deu
um toque de intimidade.
Ele tinha estendido um brao para a conduzir para um lado, e agora, a sua mo apoiava-se contra
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a parede, por trs de Nicola, reforando a atmosfera de intimidade.
- Sim, sim, estou bem... - disse Nicola, mas sentia-se tonta, confusa, incapaz de se mover ou pensar. Tinha conscincia demais da presena de Matthew.
com horror, Nicola compreendeu que queria estender a mo e tocar-lhe.
- Nicola!
A dureza na voz de Matt f-la voltar  realidade. Nicola retesou-se e afastou-se dele o mais possvel, mas ao sentir a parede contra as suas costas abriu ainda mais
os olhos.
- Eu... tenho que ir... os empregados... balbuciou com nervosismo. A ansiedade e o medo punham o seu corpo e a sua voz tensos. Evitou-o, como se qualquer tipo de
contacto fsico com ele fosse letal. Afastou-se e passou a porta, mas Matt seguiu-a e Nicola sentiu a boca seca e os msculos doridos.
- Hoje no trouxeste o carro - disse Matt, j no exterior.
Nicola viu-se obrigada a virar a cabea.
- No - disse. - Levei-o  oficina. O Gordon vem-me buscar depois do trabalho -ruborizou-se e mordeu com fora o lbio inferior. Porque  que tinha mencionado Gordon?
Queria afastar Matt do seu lado?
-  melhor ir mudar-me - declarou Matt. Trago Alan ao meio-dia e meia - a sua voz era dura e cortante.,
Mais tarde, no seu gabinete, Nicola perguntou-
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-se o que era que temia realmente. Era evidente que Matt no a tinha reconhecido, e ainda que se sentisse atrado por ela, o que no era provvel, evidentemente,
no era o tipo de homem que insistia, uma vez inteirado de que uma mulher mantinha relaes com outro homem.
Ento, porque tinha medo? Porque tremia sempre que ele se aproximava.
Nicola sabia a resposta e no lhe agradava. Fechou os olhos com vergonha e angstia. Matt foi o seu primeiro amante, o seu nico amante, ainda que ela no conseguisse
lembrar-se desses momentos. Seguramente, o seu corpo devia recordar a intimidade que tinha vivido ao lado de Matt.
Trs horas depois, um grupo de pessoas reuniu-se com alegria num armazm. Nicola pensou que a deciso de Matt de organizar uma festa para o Alan foi a certa.
Apesar de ao princpio Alan lhe parecer impressionado e sem vontade de tomar parte na festa, rapidamente se comoveu com o desejo dos empregados lhe agradecerem todos
os seus anos de trabalho.
As lgrimas humedeceram os olhos de Alan ao receber a taa gravada. A admirao de Nicola por Matt aumentou quando durante o breve discurso mencionou o motivo pelo
qual Alan tinha decidido vender o negcio.
Enquanto observava os empregados, Nicola desejou que Matt fosse diferente, que fosse mais
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parecido com o homem que inicialmente sups que era.
Ao olhar para ele agora, com tudo o que recentemente tinha aprendido sobre ele, era-lhe quase impossvel acreditar que era o mesmo homem que ela conheceu.
s quatro, as pessoas comearam a dispersar e Alan foi-se embora. As quatro e meia, os empregados comearam a limpar. A maioria dos companheiros de trabalho de Nicola
j tinham partido, seguindo o costume de acabar o trabalho mais cedo  sexta-feira.
Geralmente, Gordon saa do escritrio s cinco, pelo que Nicola sups que chegaria s cinco e meia.
A oficina fechava s seis, o que lhes dava uma margem razovel de tempo para ir buscar o carro.
Havia um bocado que Nicola no via Matt e sups que ele tambm se tinha ido embora, mas ao entrar no seu gabinete com a inteno de acabar um trabalho pendente,
surpreendeu-a descobrir que a porta de comunicao estava aberta. Matt, sem casaco, estava sentado  sua nova secretria, a verificar correspondncia.
Ao ouvi-la entrar, Matt deixou bso papis e olhou para ela.
- O teu noivo ainda no chegou?
- No chega antes das cinco e meia, por isso, pensei em terminar umas coisas - explicou Nicola.
Enquanto ela falava, ele levantou-se e afastou-se da secretria. Nicola fechou os olhos e odiou a
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onda de calor que a percorreu ao ter conscincia do corpo de Matt, da sua fora, da sua masculinidade, do aroma da sua pele...
- Ia preparar um caf. Queres um? - ofereceu ele.
Apesar de todo o seu cavalheirismo e formalidade, Alan nunca teria formulado uma oferta como aquela. Nicola mal separou os lbios e Matt interpretou o seu silncio
como um sim; passou a seu lado para chegar ao gabinete anexo e ligou a mquina.
Nicola sentou-se  sua secretria. Desconcertava-a que Matt estivesse a preparar o caf. Tentou concentrar-se no que estava a fazer, mas no conseguiu.
Antes que ele chegasse ao seu lado e colocasse a chvena na secretria, Nicola antecipou a proximidade.
Mat permaneceu a seu lado e perguntou de forma casual:
- Tu e o teu noivo vo sair esta noite? Nicola franziu o sobrolho; por um momento
no conseguiu recordar o que ela e Gordon tinham planeado. Depois, lembrou-se que era a sexta-feira do ms em que a me de Gordon jogava bridge, o que significava
que ele teria que ir lev-la e busc-la, e que eles dois no sairiam.
Por qualquer motivo, no quis explicar esta situao a Matt.
- Na realidade no. Iremos comer qualquer coisa, espero, e depois...
- Iro para casa dele - comentou Matt.
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O facto de Matt supor que ela e Gordon eram amantes f-la ruborizar-se, apesar de saber que era natural que o pensasse, pois ela no era uma jovenzinha e tinha uma
relao estvel.
- Gordon vive com a me - informou Nicola.
Reinou um longo silncio, durante o qual Nicola no olhou para Matt e tentou concentrar-se no que tinha em frente. No entanto, foi intil. Tinha tanta conscincia
de que Matt estava a seu lado, que na sua mente no havia lugar para mais nada.
Quando por fim, Nicola no conseguiu suportar a tenso do silncio, perguntou rapidamente:
- E tu, vais sair esta noite?
De imediato, desejou no ter feito a pergunta. Afinal, no lhe dizia respeito o que ele fazia da sua vida privada.
- Irei visitar os meus pais. Vivem nos arredores de Brighton. Vivem l desde que o meu pai se reformou. Principalmente, porque uma das minhas irms vive nessa rea
e os meus pais querem estar perto dos netos. A minha segunda irm vive no Canad. Tens irmos?
- No, sou filha nica - respondeu Nicola, enquanto via que o relgio do escritrio- marcava seis menos um quarto.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Matt. Nicola negou com a cabea, mas ele no ficou
convencido.
- O teu noivo est a demorar demais. Quando a nica resposta de Nicola foi morder
o lbio, Matt comentou:
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-  melhor ligares. No disseste que ele te levaria buscar o teu carro?
com subtileza, Matt voltou ao seu gabinete. Matt pegou no telefone e marcou o nmero do escritrio de Gordon, mas como esperava, no respondeu.
Ansiosa, esperou cinco minutos, ainda que soubesse que j no chegaria  oficina antes de fechar. Por fim, marcou o nmero de casa de Gordon.
Gordon respondeu e falou em tom defensivo, quando ela lhe recordou que tinham combinado que ele riria busc-la.
- A mam no est muito bem - explicou Gordon. - Tive que sair mais cedo do escritrio e no pude deix-la.  um dos seus ataques de blis, e sabes o muito que a
afectam.
Claro que Nicola sabia: aqueles ataques eram a causa de muitos encontros terem sido cancelados.
- Podias ter telefonado a avisar, Gordon replicou Nicola com voz aguda. - Agora, no posso chegar a tempo  oficina para ir buscar o meu carro.
- Podes ir amanh, no podes? No precisas dele esta noite, e o teu pai pode levar-te amanh  oficina.
- Ainda tenho que ir para casa esta noite lembrou-lhe Nicola e tentou no reagir com demasiada raiva, perante aquela falta de ateno.
- Lamento, Nicola - no parecia lamentar mas a minha pobre me sente-se muito mal..
Nicola teve que se controlar para no desligar o telefone.
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Marcava o nmero duma praa de txis quando Matt saiu do gabinete.
- Algum problema? - perguntou.
Nicola pousou o auscultador e explicou com voz tensa:
- O Gordon no poder vir buscar-me. Estava a tentar chamar um txi para ir para casa.
- No te incomodes. Eu levo-te. De imediato, Nicola ruborizou-se.
- Oh, no. No  necessrio - temia que ele pensasse que tinha planeado aquilo.
- No tem problema. De qualquer maneira tenho que passar por tua casa.
Nicola olhou para ele confusa. No estava inteirada de que ele soubesse onde vivia. Como se lhe lesse a mente, Matt disse de forma casual:
- Evie mencionou a tua direco. Ests pronta ou...?
- Sim, estou pronta - confirmou Nicola. Quando caminhavam para o Land Rover, Matt
comentou:
- E pena que o teu noivo no tenha pensado em ligar-te com tempo. Dessa forma terias podido ir buscar o teu carro.
- Oh, ele tentou ligar, mas no conseguiu...
- imediatamente, Nicola deu-se conta de que estava a mentir para proteger Gordon.
Ao voltar a cabea, dominada por um impulso que no conseguiu controlar, descobriu que Matt se tinha detido para olhar para ela com uma expresso quase amarga nos
olhos.
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- s muito leal, no  verdade, Nicola? Pergunto-me se ele tambm .
O comentrio inquietou-a, em parte, porque sabia como os sentimentos de Gordon por ela eram pouco clidos, e em parte, porque se sentiu culpada por permitir que
Matt considerasse a sua relao com Gordon emocionalmente mais intensa do que na realidade era.
Os pais de Nicola estavam no jardim quando Matt conduziu o Land Rover pelo caminho da casa. Claro que Matt teve que aceitar o convite da me dela, para tomar uma
chvena de ch.
Por fim, Matt esteve l mais duma hora. Nicola sentiu que o ltimo espinho do dia era a sua me que espetava, ao comentar com inocncia, quando Matt partiu:
- Pensei que o Gordon ia levar-te  oficina. No  que no tenha gostado de conhecer Matt.  muito atraente e inteligente...
- A me do Gordon no est bem - interrompeu Nicola e ignorou o olhar da me.
Nicola suspeitava que Gordon comeava a estair farto da relao deles, tanto como ela. Sabia que no fosse Matt, teria simplesmente sugerido a Gordon que deixassem
de se ver.
Captulo 6
- Esta noite vais com o Gordon jantar a casa da Christine e do Mike?
- Sim - respondeu Nicola  pergunta da me. A jovem estava a trabalhar ao lado de Matt h quinze dias, e tinha conseguido manter uma rotina ordenada e eficiente.
Nicola s desejava poder controlar com a mesma facilidade as suas caticas emoes.
Era-lhe impossvel negar que Matt exercia, emocional e fisicamente, um efeito muito forte sobre ela. No entanto, enquanto ela fosse a nica a saber... e conseguisse
ocult-lo durante as semanas seguintes, at o novo gerente substituir Matt...
A sua benevolncia com Gordon chegava ao limite. Ele tinha cancelado quase todos os ltimos encontros e Nicola prometeu a si mesma que se voltasse a faz-lo nessa
noite, lhe diria que no queria voltar a v-lo.
s sete e meia, o telefone tocou e Nicola atendeu. Gordon no poderia reunir-se a ela nessa noite. Ela cerrou os dentes e disse-lhe que nesse caso, no fazia sentido
continuarem a ver-se.
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Ainda que tenha protestado um pouco, Nicola soube que Gordon se sentiu aliviado com a deciso dela.
- Era Gordon? - perguntou a me de Nicola quando ela desligou.
- Era. No pode sair comigo esta noite. A me no se encontra bem outra vez. Disse-lhe que no fazia sentido que continussemos a ver-nos, pelo menos como noivos.
- Oh, querida, lamento.
- No deves lamentar - opinou Nicola. Acho que vou sentir a falta dele, mas no tenho o corao destroado.
- Bem, ele  bastante maador e tenho que admitir que nunca entendi o que vias nele. Acho que aquele tipo de homem nunca me agradou. Em troca Matt, por exemplo...
O corao de Nicola deu um salto.
- O Matt  o meu patro, me, e nada mais protestou com voz aguda. - E vai-se embora em breve.
Ao compreender que talvez tivesse protestado demais, Nicola deixou de falar. J era tarde demais para ligar para Christine e cancelar o compromisso, mas como conhecia
bem a amiga, sabia que no se importaria que fosse sozinha.
Christine tinha-lhe dito que tambm tinha convidado alguns scios de Mike, mas o jantar era informal.
Nicola j estava pronta para o jantar quando Gordon cancelou o encontro. O seu vestido era novo. Era simples, de seda azul escura; o vestido
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indicado para uma mulher que preferia no atrair os olhares masculinos.
O que no compreendeu foi que a seda aderisse ao seu corpo e lhe proporcionasse uma sensualidade muito atraente. Era o tipo de vestido que fazia um homem olhar duas
vezes.
Meia hora depois, quando Christine abriu a porta, perguntou imediatamente:
- Onde est o Gordon?
- No vem - explicou Nicola e contou-lhe o que tinha acontecido.
- Bem, j era tempo de te libertares dele opinou Christine.
- Melhor, soltei-o do anzol e libertei-o da sua misria - disse Nicola. - Olha, se o facto de ter vindo altera a tua reunio de casais...
- No sejas tonta. Para dizer a verdade, assim ficam todos emparceirados. O Mike convidou um scio dele que no tem esposa nem noiva... - ao ver a expresso de Nicola,
riu-se. - No te preocupes, no pretendo conseguir-te um parceiro. Nem sequer o conheo.
Christine mencionou que os outros convidados tambm tinham negcios com o marido. Nicola mal os conhecia, visto que viviam na aldeia h pouco tempo.
- Posso ajudar nalguma coisa? - perguntou Nicola.
- Vai l cima e conta uma histria ao Peter. Sabia que vinhas e tem-me sarrazinado com isso durante todo o dia. Ali est umhomem para ti...
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se podes esperar vinte anos at ele crescer - brincou Christine.
Nicola subiu pela escada. Meia hora depois, ao ouvir o barulho de passos masculinos que se detinham em frente da porta do quarto, com voz suave e sem voltar a cabea,
cumprimentou.
- Ol, Mike, acaba de adormecer... Quando se virou para sorrir ao marido da amiga, descobriu que no era Mike quem ali estava, mas sim Matt.
O seu corao deu um pinote, antes de comear a latejar sem ritmo.
Christine mandou-me dizer-te que vai servir o jantar - explicou Matt em voz baixa, para no despertar a criana.
Nicola achava impossvel que Matt estivesse ali, era como sonhar acordada. Achava que se virasse a cabea, ele desapareceria. No entanto, ao mov-la, ele permaneceu
no mesmo stio, observando-a. com insegurana, Nicola levantou-se, sem se precaver de que as suas emoes se reflectiam nos seus olhos, depois caminhou para a porta.
Porque  que Christine no a tinha avisado que Matt estaria presente? Talvez porque a amiga no relacionou o novo scio do marido com o seu novo patro.
Nicola desceu a escada e ao entrar na casa de jantar foi apresentada a outro casal. A mulher, Lucinda, ignorou por completo Nicola e centrou toda a sua ateno em
Matt, de maneira que fez o corao de Nicola paralisar, ainda que desta vez por um motivo muito diferente.
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Era uma ruiva alta, de olhos verdes e boca cheia. Tinha um vestido vermelho com um generoso decote.
Era evidente que o marido a idolatrava e tambm foi bvio, durante o jantar, que era o tipo de mulher que tinha muito pouco tempo para dedicar s outras mulheres.
Toda a sua ateno e conversa eram dirigidas a Matt.
Nicola disse para si mesma que no lhe dizia respeito Lucinda coquetear com Matt ou ele decidir corresponder, mas os cimes queimavam-na por dentro.
Afastou a sobremesa, que mal provou e ao levantar os olhos descobriu que Matt a observava, o que a desconcertou.
Nicola sentiu que uma onda de calor se estendia pelo seu corpo.
Quando o jantar terminou, Nicola deu-se conta de que tinha estado ensimesmada demais, pois enquanto levantavam a mesa, Christine perguntoulhe:
- Sentes-te bem? No parecia perturbada quando me contaste do Gordon, mas...
Nicola no conseguiu explicar-lhe o que na realidade se passava.,
Depois de um momento, Christine acrescentou:
- Olha, sei que disse coisas feias sobre ele... e ainda duvido que seja o homem indicado para ti... mas se queres falar disso, ou simplesmente chorar...
Nicola negou com a cabea. Perguntou-se o que pensaria Christine se dissesse que mal tinha
pensado
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em Gordon durante toda a noite, que era Matt o dono dos seus pensamentos e das suas emoes...
Christine olhou com preocupao para Nicola; depois, ao ver que Matt levava uns pratos vazios para a cozinha expressou afectuosa:
- Matt, no devias incomodar-te, mas obrigada, de qualquer maneira...
Nicola esteve quase a deixar cair o que tinha nas mos. No fazia ideia que Matt estivesse ali e o seu corao comeou a latejar com fora. Fechou os olhos e imaginou
o que teria acontecido, se ela tivesse confessado tudo a Christine e ele tivesse ouvido.
O que podia dizer-lhe? Que havia muito tempo tinha passado uma noite com ele e que estava to bbeda que no se lembrava do que tinha acontecido. Que devido  forma
como tinha deixado a festa com ele, foi tachada de no ter moral e estar sexualmente disponvel? Dir-lhe-ia que devido ao que tinha acontecido, evitava o contacto
com os homens, porque se desprezava a ela prpria? Como poderia dizer  Chris que agora descobria um Matt Hunt muito diferente do que recordava, e que pior ainda,
cada vez se sentia emocionalmente mais vulnervel perante ele?
Nicola fechou os olhos. A tenso roubava-lhe energia.
O que  que estava a tentar dizer a si mesma? Que estava apaixonada por Matthew Hunt? Deixou escapar um suave gemido, o que fez com que Matt e Chris olhassem para
ela.
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Nicola passou ao lado de Matt e apressou-se a regressar  casa de jantar, decidida a ocupar-se de levantar mais pratos vazios.
O resto da noite foi uma espcie de purgatrio. Teve que enfrentar o facto de que, independentemente do motivo ou de como era perigosamente auto-destrutivo, o seu
corpo reagia perante Matt duma forma que nunca tinha sentido. Sentia tanto a sua presena que mesmo sem virar a cabea, sabia exactamente em que ponto da sala se
encontrava... sem olhar para ele, podia sentir todas as sensaes que a invadiam e perturbavam sempre que ele se aproximava dela.
com firmeza disse para si mesma que agradecia que Lucinda o aambarcasse, porque assim ela no corria o perigo de ficar como tonta ao... Ao qu? Ao deix-lo saber
o efeito que exercia sobre ela?
Se Ghris no fosse uma das suas mais antigas amigas, tinha-se desculpado e retirado cedo, mas no queria que a amiga ficasse preocupada com ela. E, por outro lado,
precisava e falar de Matt com algum, como se ao falar, ao pronunciar o seu nome, pudesse acalmar a dor.
Dar-se conta da rapidez com que tinha percorrido um caminho perigoso, f-la
sentir-se um pouco doente. Desejava ir para casa... estar sozinha... tentar encontrar
a maneira de controlar o que lhe estava a acontecer.
A voz de Lucinda tinha um tom metlico e interrompeu os pensamentos de Nicola. Lucinda estava de p ao lado de Matt, tinhaa mo sobre o brao dele e o corpo quase
encostado ao dele.
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Perante a sua proximidade, Matt no poderia evitar aspirar o seu perfume e ter conscincia do corpo dela.
A sensao de mal-estar que lhe oprimiu o estmago surpreendeu Nicola e descobriu que tremia fisicamente, no s por cimes como tambm de raiva.
Ao ouvir Frank Barret, o marido de Lucinda, dizer que eram horas de se irem embora, o alvio que Nicola sentiu foi to grande e imediato que a enfraqueceu, no s
porque a partida deles afastaria Lucinda de Matt, como tambm que isso significava que ela tambm podia ir.
Esperou dez minutos, depois dos Barret terem sado, e anunciou que ela tambm tinha que ir. No entanto, Chris tratou de a convencer a ficar.
- Se queres falar sobre... o que aconteceu murmurou Chris.
Nicola negou com a cabea.
- Estou s um pouco cansada.
Mike, que tinha ouvido a resposta de Nicola, sorriu-lhe e passou-lhe um brao pelos ombros.
- Espero que no seja porque o teu novo patro te faz trabalhar demais - brincou Mike e Nicola riu. - Gordon no pde vir? - era bvio que ainda no sabia o que
tinha acontecido.
De soslaio, viu que Chris prevenia o marido.
- A me dele no est bem - respondeu Nicola, porque Matt estava na sala.
Tinha estado muito tensa toda a noite, e talvez por isso, se sentia to mal, pensou Nicola enquanto abria a porta do carro.
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Chris e Mike viviam longe da casa dela. Quando tinha percorrido menos de metade do caminho, descobriu de repente que o seu corpo tremia com tanta violncia que mal
conseguia controlar o carro. Deteve-se a um lado do caminho e desligou o motor.
No conseguia deixar de tremer e as lgrimas turvavam-lhe a vista. Inclinou-se para a frente, apoiou a testa no volante e fechou os olhos.
Ao dar-se conta de que algum se aproximava do seu carro, lembrou-se que tinha parado num local muito solitrio da estrada, que estava escuro e que j passava da
meia-noite.
De repente, deu-se conta de que a pessoa que se tinha aproximado do carro era Matt.
J era tarde demais para tentar ocultar as lgrimas. Quando ele abriu a porta, a luz interior acendeu-se e Matt dirigiu-lhe um olhar compreensivo ao notar o seu
rosto banhado de lgrimas.
- Vi que paravas e pensei que podia haver algum problema com o carro - explicou Matt.
- O carro est bem, obrigada - respondeu Nicola.
-  por causa dele, no ? Do teu noivo? Ouvi-te dizer  Christine que entre vocs tinha acabado tudo.
Matt endireitou-se e fechou a porta do condutor, antes de Nicola poder dizer o que quer que fosse.
Por uns segundos, ela pensou que Matt se tinha ido embora. Depois compreendeuque tinha simplesmente
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dado a volta ao carro e que agora abria a porta do passageiro.
Nicola olhou para ele sentindo uma mistura de agonizante prazer por t-lo ao seu lado e de medo, visto que sabia como era perigosa para ela aquele tipo de intimidade.
Matt comentou com voz rouca:
- Sei que j deves antes ter ouvido isto, mas ele no merece. Esse homem deve ser tonto se no compreende...
Ele pensava que ela estava a chorar por causa de Gordon. De forma automtica, Nicola virou-se para negar, mas ele estava sentado perto demais e ao voltar a cabea,
Matt levantou a mo, os seus dedos deslizaram pelo rosto de Nicola e com o polegar tentou enxugar as lgrimas.
Matt voltou a repetir:
- Ele no merece.
Nicola comeou a tremer e o calor invadiu-a. A sua pele ardia onde ele tinha tocado. Sentiu um impulso selvagem de voltar a cabea e deixar que os seus lbios explorassem
a mo que lhe acariciava o rosto. Estremeceu de novo e no se apercebeu de que ambos se moviam. Depois no houve distncia entre eles. O brao de Matt apertou-a
contra ele e acariciou-lhe o cabelo com ternura.
com um estremecimento, Nicola levantou os olhos para o olhar cara a cara. No compreendia o que motivava aquela intimidade, aquela preocupao com ela.
As sombras cobriam o rosto de Matt. A nica
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coisa que Nicola podia ver era o brilho dos seus olhos e o perfil da sua boca.
A garganta secou-se-lhe, sentiu que sufocava. Ento, entreabriu os lbios, enquanto todo o seu corpo palpitava.
Matt murmurou:
- Nicki...
A voz de Matt f-la estremecer, como se a tivesse acariciado.
Quando os lbios de Matt se apoderaram dos dela, no foi mais que uma suave sensao, uma carcia, mas sensibilizou tanto Nicola que o seu corpo tremeu.
Imediatamente, Matt deixou escapar um gemido contra a sua boca. E com a lngua acariciou os lbios de Nicola. Ela, instintivamente, tentou aproximar-se mais dele
e abraou-o.
A suave carcia da lngua de Matt era perigosamente ertica, fazia-a desejar algo mais ntimo. Os msculos de Nicola retesaram-se e os seus sentidos reagiram quando
imaginou o que ele poderia faz-la sentir.
Dominada pela resposta fsica perante ele, Nicola acariciou-lhe as costas e os ombros e deixou que as suas emoes e desejos a controlassem.
Aquilo era, com certeza, algo que tinha feito antes de outra maneira; como podiam as suas mos e todo o seu corpo ansiar tal intimidade?
Quando Matt afastou a sua boca da de Nicola para lhe acariciar o pescoo, ela deixou escapar um som de pesar. O seu corpo tremia com necessidade e ansiedade.
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Pronunciou o nome de Matt, ainda que no tivesse conscincia de o ter feito e quase imediatamente ele voltou a beij-la mas no com a suavidade da primeira vez.
Agora beijava-a com tal intimidade que o corpo de Nicola se arqueou.
Ele estremeceu e Nicola reagiu do mesmo modo. Os seus seios estavam oprimidos contra o trax de Matt e sentiu uma dor quase insuportvel, no pela presso do abrao,
mas por uma causa muito mais privada, primitiva e sensual.
Nicola desejava as mos de Matt no seu corpo, no s as suas mos... Trmula, fechou os olhos; dominava-a uma onda de necessidade.
L fora, ouviu-se o rudo duma buzina e o chiar duns pneus e isso fez com que Nicola se desse conta do que fazia.
Ao sentir a tenso, Matt soltou-a e falou em voz baixa:
- Lamento. No foi minha inteno... no quis...
Naquela ocasio, a sensao ardente que Nicola sentiu no foi causada pelo desejo, mas sim pela vergonha.
Depois de um momento, Matt acrescentou:
- Olha, porque no deixas o carro aqui e deixas que te leve a casa? ests perturbada e...
- Sou perfeitamente capaz de conduzir - afirmou Nicola.
Sabia que no estava em condies de conduzir, mas no queria passar mais tempo ao lado de Matt.
Ainda no tinha a certeza do que tinha acontecido...
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Tinha-se deixado dominar por uma espcie de loucura.
Se foi assim que se portou naquela noite, no a surpreendia que ele parecesse to satisfeito na manh seguinte.
Por um momento, fechou os olhos para controlar as lgrimas.
- Por favor, vai-te embora... quero ir para casa... - pediu. Ficou tensa ao ver que ele hesitava. Sabia que se Matt ficasse, era provvel que ela perdesse completamente
o controle, por isso insistiu. - Vai-te embora, por favor...
Ao ver que ele abria a porta do carro para sair, Nicola sentiu-se aliviada. Matt deteve-se um momento para lhe dizer:
- Ainda no acho que estejas em condies de conduzir, por isso, vou atrs de ti para ter a certeza de que chegas bem a casa. Sem discusses - interrompeu-a, quando
ela tentou protestar. - De outra forma tiro-te da  fora, se for preciso...
Em silncio, Nicola viu-o afastar-se e controlou a tentao de fugir na noite. Sabia, no entanto, que Matt tinha razo ao dizer que ela no estava em condies de
conduzir.
Felizmente, a estrada estava tranquila, pois apesar de se concentrar no que estava a fazer, a sua mente era um turbilho de medos, que s tinham que ver com o que
tinha acontecido com Matt.
Ao meter no caminho de casa dos seus pais, Nicola olhou pelo espelho retrovisor e viu o carro de Matt parado no princpio do
caminho.
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Ele tinha-a seguido at casa. Porque  que cuidava dela? Talvez por se sentir responsvel pelo seu estado. Mas, porque iria sentir-se culpado, se foi ela que...
Nicola estremeceu e deteve o carro. Ao recordar os beijos corou e deu graas por ningum a ver e testemunhar a sua vergonha e angstia.
A nica inteno de Matt foi oferecer-lhe um ombro para ela chorar. Mesmo o primeiro beijo s pretendia confort-la.
Ao entrar em casa, Nicola desejou que ele se. tivesse recordado dela ao v-la de novo. Ento; t-la ia, com certeza, evitado como uma praga e no teria existido
qualquer intimidade entre eles.
O primeiro temor inicial de Nicola ao v-lo era que a reconhecesse e a envergonhasse tornando pblico o seu comportamento, mas esse medo j no existia. Matt no
era esse tipo de homem. Bastava evocar a sua atitude com ela nessa noite... a sua bondade, a sua preocupao.
Ele at tinha pedido desculpa pelo que tinha acontecido, quando os dois sabiam que ela era a verdadeira culpada.
Ironicamente, quando Nicola ficou sozinha e com liberdade para chorar, descobriu que j no queria faz-lo. Compreendeu que tambm no conseguia dormir, pois cada
vez que fechava os olhos as sensaes que sentiu quando Matt a beijou e abraou, atormentavam-na.
Matthew Hunt... Porque era to susceptvel a ele? Nicola enroscou-se na cama, tentando convencer-se de que quando Matt se fosse embora ela
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poderia recuperar o controle das suas emoes.
Um sorriso amargo apareceu na boca de Nicola. Que irnico era o destino enviando-o de novo  sua vida daquela maneira! Que sarcstico e cruel! A sensualidade que
ela tinha negado durante todos aqueles anos, de repente, com a chegada de Matt tinha-se apoderado dela.
Desejou ser capaz de recordar a noite que passou ao lado de Matt, para assim poder...
Poder o qu? Reviv-la na mente? Nicola fechou os olhos e tentou dormir.
Captulo 7
- Nicola, apresento-te Tim Ford.
- Um encontro bastante demorado, receio bem - comentou Tim ao apertar a mo de Nicola.
Estavam no gabinete da jovem. Ela tinha chegado havia dez minutos, mas Matt j l estava e acompanhado pelo novo gerente.
Nicola tentou ignorar a sua angstia ao compreender que o seu contacto dirio com Matt em breve seria coisa do passado. Disse para si mesma que se tivesse algum
bom senso, devia sentir-se aliviada porque Tim Ford tinha chegado.
Desde a noite em que Matt a tinha acompanhado a casa depois do jantar em casa de Chris, no conseguia suportar a tenso que trabalhar com Matt lhe provocava.
Nicola perdia peso e cada vez estava mais tensa. Ainda que soubesse que os pais e as suas amigas
estavam preocupadas com ela e pensavam que o seu estado de nimo
se devia  ruptura com Gordon, no se atrevia a revelar-lhes a verdade.
Necessitou de muito tempo para reconhecer essa verdade... Estava apaixonada por Matt. OIhou-o de soslaio enquanto ele conversava.
Durante as horas de escritrio, Matt no fez
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referncia alguma ao que tinha acontecido entre eles; no entanto, no dia seguinte, depois do jantar, ele tinha ido inesperadamente visit-la.
Nicola estava no jardim, a apanhar ervilhas para o almoo do dia seguinte.
As desculpas de Matt pelo que tinha acontecido deixou-a muda e sentiu-se culpada e envergonhada. Desejou dizer-lhe que ela era igualmente responsvel, mas no encontrou
as palavras Para o fazer.
Matt queria que Nicola soubesse que no devia ter medo que ele a incomodasse sexualmente. Disse-lhe que sabia que ela amava Gordon, que eram ambos adultos e portanto,
conscientes de que os factos mais incuos, quando eram dominados por emoes muito fortes, podiam acabar numa coisa no desejada.
O que tentava dizer-lhe era que ele s tinha querido assegurar-se de que ela estava bem. Nicola j o sabia e as desculpas dele fizeram-na sentir-se ainda pior que
antes, em especial quando olhou para ele e evocou a sensao de estar nos seus braos e a carcia dos seus lbios contra os dela.
Quando Matt sugeriu que ambos afastassem da mente o que tinha acontecido, Nicola esteve imediatamente de acordo...
Tim Ford dirigiu-se a ela nesse momento e Nicola atendeu-o.
Era um homem atraente, de pouco mais de trinta anos,solteiro e que trabalhava para Matt havia vrios anos.
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Ainda tinha a perna engessada devido ao acidente que o tinha mantido imvel durante quinze dias.
- Visitar as obras ser um problema durante algum tempo - disse Tim a Nicola, enquanto Matt recebia uma chamada telefnica.
Tim perguntou se ela gostava do novo sistema de computadores que estavam a instalar e se lhe parecia prtico.
Meia hora depois de o conhecer, Nicola soube que poderia trabalhar em harmonia com ele, talvez com mais eficincia que com Matt, visto que a seu lado no estaria
to tensa.
Matt estava a falar ao telefone e Nicola notou que os observava com o sobrolho franzido. Nicola ficou tensa. Tinha, por acaso, feito alguma coisa mal?
- Se tens um momento, Tim, h algumas coisa que gostava de verificar contigo - disse Matt com voz cortante. Tim dirigiu-se para a porta que separava os dois gabinetes
e Matt acrescentou, dirigindo-se  jovem. - Tenho a certeza que tens coisas para fazer, Nicola, por isso, no te tiramos mais tempo.
Doeu-lhe que ele no lhe tivesse chamado Nicki, como nos ltimos dias, assim como a forma fria com que tinha esclarecido que no desejava a sua presena.
Disse para si mesma que era uma tonta ao tomar aquilo de forma to pessoal. A porta fechou-se e Nicola sentou-se  secretria a trabalhar.
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O problema era esse. Estava ligada ao Matt pessoalmente demais e sabia que os seus sentimentos por ele no eram recprocos. Alm disso, ainda que fossem, o que aconteceria
quando ela tivesse que explicar... que lhe dizer?
Ocultar a verdade ia contra tudo em que ela acreditava. Seria suficientemente mau ter que contar o que tinha acontecido se o homem fosse outro, mas quando o homem
era Matt...
Porque se preocupava tanto com uma coisa que nunca aconteceria? perguntou-se Nicola meia hora depois. Segundo Matt pensava, ela ainda amava Gordon, e por orgulho,
Nicola no pensava dizer-lhe a verdade.
Quando a porta do gabinete interior se abriu e Matt e Tim saram, Matt disse a Nicola:
- Vamos almoar, Nicola. No demoraremos muito.
Tim estava de p ao lado de Matt, franziu o sobrolho e interrompeu-o:
- Oh, pensei que Nicola vinha connosco...
- Tenho a certeza que tem coisas mais importantes para fazer na hora de almoo - comentou Matt.
Nicola inclinou a cabea sobre os papis que estavam na secretria, pois no queria que nenhum dos dois notasse como a frieza de Matt a feria.
Dez minutos depois, a jovem pegou no casaco e saiu do escritrio para ir almoar, ainda que na realidade, no sentisse fome.
Era uma caminhada curta at ao centro da pequena
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aldeia. Quarta- feira era o dia de mercado e havia muito movimento.
A empregada encontrou uma mesa pequena para Nicola, junto da janela, donde podia ver as pessoas entrarem e sarem.
A jovem estava quase a comear a comer, quando Christine entrou e a viu.
- Nicki! Pensei que podia encontrar-te aqui cumprimentou-a com entusiasmo e sentou-se. OIhou com inveja o prato de massa de Nicola e comentou. - Tens sorte em poder
comer o que queres. Comeo a parecer uma baleia e agora que estou outra vez grvida...
Riu quando Nicola a felicitou e admitiu que ela e Mike estavam muito entusiasmados com o novo beb.
Depois de um momento, Christine comentou:
- Devias casar-te e ter um filho - mordeu um lbio, mortificada. - Oh, Nicki, lamento muito.  uma falta e tacto da minha parte, quando tu e o Gordon...
- No estou preocupada por causa do Gordon
- assegurou Nicola. - Na realidade... bem... digamos que foi o melhor para os dois. Afinal, nunca fomos mais que amigos, no muito bons amigos.
- Ento, porque  que parece que de repente o mundo te caiu em cima? - perguntou Christine e observou-a. - No tentes negar que tens algum problema, Nicki. Emagreceste,
quase no sorris... Na realidade, tens todos os sintomas dum
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amor no correspondido - fez uma pausa e mordeu de novo o lbio. - Oh, Nicki, no se trata do Gordon, pois no?  o Matthew Hunt.
Nicola afastou o prato, quase sem ter tocado na comida.
-  o clssico, no ? - perguntou Nicola, com amargura. - A secretria simples e sem atractivos que se apaixona pelo patro bonito e sexy.
- Ningum te descreveria dessa forma - objectou Christine e acrescentou pensativa: - Na realidade,  um amor no correspondido, Nicki? Quero dizer, no pude evitar
aperceber-me, durante o nosso jantar, de que ele parecia desejar estar contigo.
- Se fosse assim, teria evitado a Lucinda indicou Nicola. - No quero falar nisso, se no te importas, Chris. Vai acabar por passar... desde que mais ningum chegue
 mesma concluso que tu chegaste. No pensei que fosse to bvio...
- No  - assegurou Christine. - No entanto, conheo-te muito bem, isso  tudo.
- Prefiro que as pessoas pensem que estou a sofrer por causa do Gordon e que no saibam a verdade, Matt vai-se embora em breve. O novo gerente chegou hoje. E quando
ele se estabelecer, Matt s far visitas espordicas.
- Vai-se embora? - perguntou Christine surpreendida. - Ele no tinha dito nada ao Mike relativamente ao contrato de arrendamento da casa. Na realidade, parece-me
que disse que queria prolong-lo.
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- No sei - disse Nicola. - Talvez queira a casa para Tim Ford, o novo gerente. Afinal, por aqui no  fcil conseguir casas de aluguer - fez uma pausa e brincou
com a comida. Manteve a cabea inclinada, ao perguntar em voz baixa: No vais dizer nada a ningum, nem sequer ao Mike, pois no, Christine?
Os olhos de Nicola encheram-se de lgrimas quando Christine colocou a mo sobre a dela e lhe assegurou com firmeza:
- Confia em mim, Nicki. Lembro-me muito bem o que senti quando me apaixonei pelo Mike e pensava que ele no estava interessado em mim. Acho que teria morrido se
algum lho tivesse dito. No direi a ningum e isso inclui o Mike. Talvez no seja uma situao to m como tu pensas, No pude deixar de notar como foi atencioso
contigo durante o jantar.
- Estava s a ser delicado - opinou Nicola.
No desejava que algum tentasse levantar-lhe o nimo e a animasse a acreditar em algo absurdo. Alm disso, Chris nem sequer conhecia toda a histria.
Nicola afastou o prato e disse a Christine,enquanto se punha de p:
- Ser melhor ir-me embora. Alegro-me muito que estejas outra vez grvida.
- Acho bem, porque temos a inteno de te pedir que sejas a madrinha - manifestou Chris e sorriu. Ao observar que a amiga se afastava, franziu
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o sobrolho e o seu sorriso desapareceu. Desejou poder fazer alguma coisa por Nicki.
com a chegada de Tim Ford, Nicola notou uma nova distncia entre ela e Matt. Talvez fosse natural que ele se afastasse e deixasse que Tim tomasse as rdeas e dirigisse
o negcio. No entanto, Nicola estava muito magoada que quando queria tratar alguma coisa com ele, a mandasse ter com Tim.
E quando ele tinha que falar com Nicola, ele permanecia  distncia. Em troca, antes colocava-se to perto que os seus corpos quase se tocavam.
Muitas vezes, ela teve que resistir ao impulso de disfrutar aquela intimidade, ainda que fosse daquele breve contacto fsico, com ele. Agora, no era necessrio
exercitar o seu controle fsico, pois a distncia que ele mantinha entre eles encarregava-se de o fazer.
Na ltima manh em que Matt estaria no escritrio, chegou tarde e anunciou que partiria  hora do almoo.
Comentou que tinha decidido fazer uns dias de descanso, que pensava passar ao p dos pais.
- A minha irm e a famlia vieram do Canad. No a vejo desde que casou, h dois anos - explicou Matt.
- Tens muitos sobrinhos? - perguntou Nicola, com um pouco de inveja, pois sempre desejou ter uma famlia grande... irmos e irms.
- Duas sobrinhas, trs sobrinhos e um "ainda no sei" - disse Matt e sorriu.
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Aquele amvel sorriso fez com que o estmago de Nicola ficasse tenso.
Matt tinha comentado que era provvel que fosse cerca das duas da tarde, e Nicola apressou-se para poder chegar ao escritrio antes e saborear uns segundos extra
na presena de Matt.
Ao chegar ao jardim da empresa, no viu o carro dele e quando encontrou Tim na entrada, ele disse casualmente que Matt j se tinha ido embora.
Instintivamente, Nicola voltou a cabea para Tim no notar o seu desespero.
Ouviu que Tim acrescentava com insegurana:
- Perguntava-me se tu poderias dar-me alguns conselhos sobre como me incorporar na vida social local... J passei a idade de ir s discotecas, mas no estou suficientemente
velho para me juntar  brigada do cachimbo e da pantufa... no jogo golfe e...
- Posso apresentar-te algumas pessoas, se quiseres - interrompeu-o Nicola. - Pode ser um processo lento e comprido o facto de conhecer novas pessoas, especialmente
numa zona rural como esta. Frequentemente, reno-me com alguns amigos no bar da aldeia, nas sextas-feiras  noite. Se queres vir...
- Tens a certeza que no te importas? - perguntou Tim.
- Nem um pouco - assegurou ela.
Na realidade, o que menos queria era sair, no entanto, ficar a sofrer por um homem que nunca poderia am-la, tambm no era nada bom. Alm
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disso, j era tempo de comear a espalhar pelos amigos que no estava a sofrer por causa de Gordon.
Gordon no gostava de ir ao bar, nem de se reunir com os amigos de Nicola.
Quando Tim se ofereceu para passar a busc-la, Nicola esteve quase a no aceitar, mas mudou de opinio.
Nessa noite, quando disse aos pais que ia sair com Tim, a me olhou-a pensativa.
- Lamento que Matt no tenha ficado c comentou. - Parecia muito agradvel.
Alguma coisa na voz da me, mais que as palavras em si, fez Nicola tremer. Teria a sua me adivinhado o que ela sentia por Matt? Algum mais o teria descoberto?
Teria Matt adivinhado? Por esse motivo esteve to distante com ela, to frio?
Ao pensar naquela possibilidade, o desespero invadiu-a.
Enquanto se preparava para sair, Nicola tentou animar-se e disse a si mesma que se alegrava que ele se tivesse ido embora, pois assim seria mais fcil afast-lo
da sua mente e concentrar-se em pr em ordem a sua vida.
Quando Tim chegou s oito para a levar, Nicola convidou-o a entrar para conhecer os seus pais. A me dela, ao ver a perna magoada e o pesado gesso, ficou surpreendida.
Felizmente, o carro era automtico, segundo Tim disse  senhora.
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Tim era agradvel e ainda que no ansiasse sair com ele, Nicola apreciou bastante a noite.
Os seus amigos no fizeram comentrios sobre Gordon e receberam Tim com agrado; no entanto, Nicola notou que uma ou duas sobrancelhas se arquejaram quando o apresentou
como o patro dela. com firmeza ela esclareceu que o relacionamento deles era s de negcios.
A meio da reunio, Lucinda Barrett chegou sem o marido e cumprimentou logo Nicola como se fossem velhas amigas.
Nicola escondeu o desagrado que sentia por ela e com cortesia apresentou-a aos amigos. Cerrou os dentes com enfado quando Lucinda lhe disse em voz alta:
- Cus, no perdeste tempo para substituir o Gordon, eh?  verdade o que aconteceu ao Matt? No o vejo h bastante tempo, apesar dele nos ter visitado na semana
passada...
Nicola sentiu que a sua raiva aumentava, mas tentou control-la. Os
seus olhos brilharam um pouco ao dizer:
- O Tim  o meu novo patro, Lucinda, e relativamente a Matt, ele s estava c temporariamente. Suponho que ele prprio o ter mencionado...
Nicola no conseguiu evitar o ltimo comentrio. Suspeitava que Lucinda, estava deliberadamente a inventar uma intimidade entre ela e Matt.
Nicola teve a satisfao de ver que o rosto muito
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bem maquilhado de Lucinda corava um pouco. A ruiva olhou para ela com desagrado antes de se voltar para aambarcar um dos homens.
Pouco depois, quando Lucinda partiu, Tim disse a Nicola:
- Ena! Parece uma devoradora de homens. Acho que no devia fazer este comentrio, porque ela  uma das tuas amigas.
- No  - garantiu Nicola e acrescentou um pouco incmoda. - Lamento se te envergonhaste quando ela insinuou que tu e eu... Bem, que eras meu noivo. Eu...
- No me envergonhei - declarou Tim. Talvez tenha sentido inveja...
Ela olhou para ele perplexa e explicou-lhe com voz suave:
- s uma mulher muito atraente, Nicola e tambm muito inteligente. Ficaria orgulhoso se algum pensasse que eras minha noiva. No gosto de me intrometer, mas pelo
comentrio da Lucinda, depreendi que no h ningum especial na tua vida de momento...
As campainhas de aviso comearam a tocar na mente de Nicola. Tinha vivido aquela cena muitas vezes. Um homem simptico e decente aproximava-se e demonstrava interesse
nela, mas independentemente de o achar agradvel ou no, existia sempre a barreira de saber que se deixasse que a ligao crescesse, chegaria o momento em que teria
que lhe falar do seu passado
Alm disso, Tim agradava-lhe.
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- No h ningum de momento, mas... comeou Nicola a dizer.
- Mas no queres comprometer-te - acabou Tim. - Tenho pouca sorte, mas isso no significa que no possamos ser amigos.
- Podemos ser amigos - assegurou Nicola.
- Nicola, no te tinha dito, mas vai haver brevemente um congresso a que teremos os dois que assistir, pelo menos  o que o Matt quer. Ser perto de Bournemouth,
no Gran Hotel, durante o fim-de-semana de vinte e oito. Matt considera que essas conferncias so muito importantes, uma vez que se trataro diferentes temas ambientais
relacionados com a indstria de construo. Podes ir?
Nicola assentiu com a cabea.
- Parece interessante - comentou. - Quanto tempo durar?
- S dois dias - explicou Tim. - Sairemos daqui na sexta-feira ao  hora do almoo e voltaremos do domingo  noite.
Falaram dos assuntos que provavelmente seriam abordados no simpsio durante uns minutos at que Evie chegou e disse ao Tim que precisavam dele no jardim.
A noite, quando Nicola informou os pais da conferncia, o pai comentou em tom aprovador:
-  uma sbia deciso de Matthew Hunt relacionar o negcio com os assuntos ambientais. As empresas que primeiro tiverem conscincia dos
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problemas ambientais so as que tero mais xito.
Nessa noite, quando Nicola foi para a cama, perguntou-se se Matt assistiria ao simpsio. Um doloroso desejo invadiu o seu corpo.
No interessava quantas vezes repetia que no devia pensar nele, no conseguia evit-lo... no consegui evitar pensar nele, desej-lo, am-lo.
Trs dias antes da conferncia, o capataz entregou a sua demisso e anunciou que ia montar um negcio por conta prpria.
Depois de tratar com ele, Tim voltou-se para Nicola e disse:
- Pergunto-me quantos dos nossos homens planeia levar com ele.
- Se te serve de consolo, duvido que algum fique ao lado dele muito tempo - expressou Nicola.
- Talvez, mas... olha, terei que ir  obra. Se for necessrio, at encontrarmos um substituto, tenho que fazer de capataz. J fiz. Matt comeou este negcio com
dificuldades, e gosta que todos os seus gerentes tenham pelo menos um conhecimento bsico de todos os trabalhos relacionados com o negcio. O Matt era bastante rebelde
na juventude.
Tim fez uma pausa antes de acrescentar:
- Podia ter trabalhado com o pai na cidade, mas decidiu deixar cedo a
escola e percorrer o mundo. Foi assim que adquiriu as diferentes especialidades
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na construo. Depois, quando regressou, estudou na universidade e decidiu montar o seu prprio negcio...
Um rebelde... isso estava de acordo com o Matthew Hunt que Nicola recordava... o Matthew Hunt com roupa e modos descontrado, com sorriso de pirata e a sua indiferena
depois de ter partilhado uma noite de sexo.
Na quinta-feira antes do simpsio, Tim chegou tarde de manh e anunciou que passaria o resto do dia numa das obras, onde havia alguns problemas.
- Sem capataz, preciso de estar l para ver o que se passa - explicou. - Ficars bem aqui?  uma pergunta tonta - acrescentou, sem deixar Nicola responder. - Claro
que ficas bem. Sabes, ests a desperdiar-te aqui, Nicola. s uma administradora de primeira; podias ser uma pessoa importante onde quisesses...,
- No - disse Nicola. - Tentei viver na cidade quando era mais jovem e no gostei.
- No? Bem, no s a nica - disse Tim. Os homens, tal como as mulheres, comeam a perguntar-se se no esto a sacrificar coisas demais pela carreira. Pessoalmente
sou contra a obsesso pelo trabalho. Amanh estars pronta a horas, no  verdade? Samos cedo daqui, talvez devssemos viajar juntos. No faz sentido levar dois
carros...
- Sim, o meu pai traz-me de manh, para o meu carro no ficar aqui o fim-de-semana todo.
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Como Nicola queria deixar o gabinete limpo, nesse dia trabalhou at tarde.
Tim no tinha voltado e a porta de comunicao entre os dois gabinetes estava fechada. Vrias vezes, depois de Evie sair, Nicola olhou para a porta e tentou no
cair na armadilha de imaginar que o outro gabinete no estava vazio e que s teria que abrir para ver Matt sentado  secretria a trabalhar.
Captulo 8
Na sexta-feira de manh, s oito, o pai de Nicola deixou-a no jardim da empresa. Ele levava a sua mala com tudo o necessrio para o fim-de-semana.
O fato que levou no era novo, mas sentia-se cmoda com ele, apesar de a saia ter encolhido na ltima vez que a tinha lavado.
O casaco era cinzento, igual  saia, comprido e cruzado.
- Ests maravilhosa! - disse Evie ao v-la.  uma pena no teres uma blusa vermelha para usar com o fato.
Nicola disfarou.
Levava outro fato na maleta, assim como umas calas e uma camisola grossa, para o caso de alguma reunio ter lugar nos jardins que rodeavam o hotel.
A me sugerira-lhe que poderia haver uma certa formalidade no jantar de sbado,pelo que devia levar um vestido. Nicola deixou-se convencer e levou o seu vestido
de seda azul marinho, ainda que no pudesse pr aquele vestido sem pensar em Matt, sem recordar que a tinha abraado e beijado.
Tinham combinado sair s dez e meia, mas Tini
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ainda no tinha chegado. Nicola olhou para o relgio com um pouco de ansiedade.
Sabia que Tim tinha planeado visitar duas obras antes de partir em viagem, mas ela no fazia ideia de quais. Naquele momento, Evie exclamou com excitao:
- Matt Hunt acaba de chegar!
Nicola mal tinha conseguido controlar a sensao de angstia no estmago quando a porta se abriu e Matt entrou. Usava um fato muito elegante. - Se vens ver o
Tim, receio... - No venho por isso - respondeu Matt irriI tado e depois dirigiu-se a Evie. - Evie, se puderes preparar um caf... Nicola, entra para o meu gabinete,
gostava de falar contigo, Nicola pensou que j a tinha reconhecido e ia despedi-la. com certeza j sabia o que sentia por
ele.
Tensa, Nicola seguiu-o at ao gabinete dele e
notou que ele esperou que ela entrasse para fechar
a porta.
Matt exclamou:
- Receio que ocorreu um pequeno acidente. Tim caiu ontem numa obra. Felizmente, no ficou muito magoado, no entanto, isso significa que no pode ir ao simpsio.
Isso torna mais imperativo que tu vs. Discuti todo o assunto com ele e estamos ambos de acordo em que s muito capaz de julgar o que ser ou no, importante na
nossa rea... No entanto, ningum deseJa forar-te a fazer algo que no queiras...
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A cabea de Nicola era um turbilho. A raiva de Matt no estava dirigida para ela, no havia nada pessoal naquilo; estava simplesmente irritado porque Tim tinha
tido um acidente e no podia ir s conferncias. Estaria por acaso, a perguntar-lhe se ela estava disposta a ir sozinha ao simpsio?
- Tenho que ir a casa buscar o meu carro afirmou Nicola. - Claro que estou disposta a ir. Lamento o acidente do Tim; vai ficar bem?
- Vai- respondeu Matt. Evie bateu  porta e entrou.
Enquanto Evie lhes servia o caf, Matt disse a Nicola
- Ento, o simpsio continua de p. Bem. No precisas do carro. Viajars comigo.
Viajar com ele! A mo de Nicola tremeu e o caf entornou-se no prato. Se ele ia assistir, porque  que era necessrio que ela estivesse l?
Ele explicou rapidamente:
- Evidentemente, eu estarei l, mas por um motivo diferente. vou dar uma conferncia sobre os benefcios de encontrar materiais alternativos, para evitar a destruio
dos bosques, a eroso do solo, comea a haver alguns avanos nessa direco... - continuou a falar sobre a importncia da conferncia, mas ela mal ouvia o que ele
dizia.
Se tivesse sabido que assistir  conferncia sem o Tim significava viajar com Matt...
- J estamos atrasados - disse Matt. - No quero apressar-te, Nicola, mas se j ests pronta...
Pronta? Nunca estaria pronta para aquela inesperada
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e perigosa intimidade com ele, para a mistura de gozo e angstia que sentia cada vez que o via. Necessitava de tempo, de tempo para se preparar...
Estava irritada consigo mesma por ser to tonta para ter medo de viajar de carro com Matt.
Tinha por acaso to pouco controle sobre si mesma, sobre as suas emoes, sobre o seu amor, que temia no conseguir ficar sentada a seu lado, sem trair os seus sentimentos?
Sem poder olhar para ele, Nicola dirigiu-se para a porta, que ele abriu.
Captulo 9
Tinham viajado mais de uma hora, quando de repente, Matt saiu da estrada principal e meteu numa tranquila estrada secundria.
Ao chegar a uma aldeia pequenina, estacionou o carro fora de um hotel e Nicola olhou para ele surpreendida.
- No bebeste o caf antes de sair - comentou ele. - Quando chegarmos ao simpsio, iremos directamente para um almoo de trabalho. No ters tempo para procurar
o teu quarto e muito menos para despejar a mala. A primeira oportunidade para te descontrares, se tiveres sorte, ser quando fores para a cama esta noite. E nessa
altura, a tua cabea estar to cheia de informaes e dados que no conseguirs dormir.
Matt fez uma pausa e depois perguntou:
- Trazes um gravador de bolso, no trazes? Vai-te ser muito til e evita-te tirar notas.
Matt abriu a porta do carro, e depois abriu a porta de Nicola. Automaticamente, ela desceu do carro e evitou que o seu corpo tocasse no de Matt.
S tinha parado por causa disso?
Em silncio seguiu-o at  cafetaria do hotel.
Uma empregada levou-os a uma mesa, com vista para a rua.
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Serviram-lhes caf e Nicola achou-o muito agradvel.
- Sentes-te melhor agora? - perguntou Matt.
Nicola levantou aos olhos da chvena e descobriu que Matt a observava e que mal tinha tocado no caf. Imediatamente ruborizou-se.
Depois de uma pausa, ele acrescentou:
- Se ests preocupada com o Tim, no acho que se tenha magoado muito.
O rubor de Nicola tornou-se mais profundo, ao reconhecer o pouco que se tinha preocupado com Tim. Estava obcecada.
Notou que Matt ainda no tinha bebido o caf, ainda que insistisse para ela beber uma segunda chvena. Nicola compreendeu que tinha parado por causa dela.
O seu corao deu um pinote e sentiu dificuldade em respirar, mas de imediato pensou que estava a ser ridcula. Porque iria Matt importar-se se ela tinha ou no
bebido caf?
Quando saram do hotel, Matt mal tinha provado o caf.
Enquanto se dirigiam para o carro, Nicola perguntou-se o que se passava com ela. Era suficientemente tonta para se convencer que Matt se importava com ela?
Ela era simplesmente uma das suas empregadas, isso era tudo.
Chegaram ao carro e, sem pensar, Nicola aproximou-se da porta, ao mesmo tempo que Matt se movia para a abrir.
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Por momentos, ela senti a presso do brao de Matt contra o seu corpo. Foi uma sensao de choque combinada com um desejo agudo e doloroso.
Trmula, afastou-se dele. Ao subir para o carro, Nicola olhou para a sua prpria imagem reflectida no espelho lateral. Notou o desespero que os seus olhos expressavam,
e que o seu rosto estava muito plido. A sua boca tremeu ao voltar a cabea para esconder a sua expresso.
Matt perguntou-lhe se se importava se pusesse msica, o que ela agradeceu, pois daquela maneira no teria que falar com ele.
Deliberadamente, Nicola fingiu interesse na paisagem. De repente, perdia o controle, e sem se dar conta do que fazia, voltava a cabea para observar Matt, o seu
rosto, o seu corpo, as mos que seguravam o volante.
Cada vez que olhava para ele, dominava-a uma intensa excitao. Sentia-se sensvel na sua presena, era como se lhe faltasse uma capa protectora de pele, como se
sentisse as suas carcias em todo o seu corpo e respondesse a elas.
Quando chegaram ao hotel onde teria lugar o simpsio, Nicola rezou para que estivessem to ocupados como Matt tinha dito. Dessa maneira, s podia pensar no trabalho.
Quando desceram do carro, Nicola sentiu-se um pouco tonta.
- Tens a certeza de que ests bem? - perguntou-lhe Matt, enquanto a rodeava com um brao.
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Consciente do muito que estremecia e sem se
atrever a olhar para ele, Nicola conseguiu assentir
com a cabea e murmurar:
- Estou s um pouco tonta. Daqui a pouco estou bem.
Notou que Matt franzia o sobrolho e contemplava-a. O que  que ele pensava? Sem dvida, lamentava ter sugerido que ela assistisse  conferncia. Nicola compreendeu
que no dava uma imagem de mulher de negcios.
Os seus temores foram confirmados quando Matt disse:
- Olha, se no te sentes bem...
- vou ficar bem, a srio - assegurou Nicola e comeou a caminhar para a entrada principal do hotel.
O vestbulo do hotel estava repleto de pessoas que assistiam ao congresso. O calor e o rudo fizeram com que Nicola se sentisse mais tonta, e teve que parar.
Ao ver que duvidava, Matt deu-lhe o brao, dando-lhe segurana. Nicola sentiu a sua resposta fsica ante ele.
- Espera aqui - ordenou Matt. -. vou registar-nos e buscar as chaves dos quartos. Depois, ser melhor irmos directamente para a sala de conferncias.
Ao ver que a recepcionista sorria a Matt, Nicola sentiu um n de cimes no estmago. Voltou a cabea e disse para si mesma que o seu comportamento era estpido.
com todo o corao desejou
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que as coisas no tivessem corrido mal e estar ali com Tim e no com Matt. Descobriu que havia mais amargura que doura em estar ali com ele, e mais dor que prazer.
Matt regressou a seu lado e disse:
- A tua chave...
Nicola pegou na chave que ele lhe estendia. Atrs dela, algum entre a multido a empurrou e ela perdeu o equilbrio. Automaticamente, deu um passo em frente e anulou
o pequeno espao que a separava de Matt. Ficou tensa quando ele a segurou e fechou os dedos na parte superior do seu brao. Sentiu que a sua respirao quente quase
lhe queimava a pele. Matt franziu o sobrolho e parecia nervoso.
- Isto parece um manicmio.Vamos para a sala de conferncias - ainda no a tinha soltado.
- J devamos estar l.
Quando comearam a abrir caminho entre a multido, Nicola esperava que ele a soltasse, mas no foi assim.:
Ao aproximar-se da rea de conferncias, entregaram-lhe uma pasta com informaes e as suas identificaes. Depois entraram num enorme salo, onde as empregadas
comeavam a servir a comida.
Assim que entraram no salo, um homem aproximou-se de Matt. Nicola esperava que ele a soltasse e comeou a afastar-se, mas para seu assombro, Matt no a soltou.
- Esta  Nicola Linton, faz parte do meu pessoal - apresentou-a.
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Tratava-se dum engenheiro. Muito depressa os dois homens comearam a falar e Nicola notou que Matt insistia delicadamente em inclu-la na conversa, que era sobre
o novo nfase que se dava aos assuntos do meio ambiente e como isso afectaria as empresas de construo.
Depois disso, Nicola mal teve tempo para respirar, pois o ritmo era rpido, como Matt predissera.
A ltima reunio do dia terminou depois das seis horas, e ficaram livres para ir procurar os quartos,
- O jantar desta noite ser formal - comentou Matt, enquanto esperavam o elevador. - Sugiro que nos encontremos no bar; o que te parece s sete e meia?
Nicola assentiu.
Queria tomar centenas de notas, porque tinha aprendido coisas importantes para o seu trabalho, e tinha a certeza de que no se lembraria delas se no as anotasse.
E calculou que precisava de meia hora para tomar um duche e vestir-se para o jantar.
Uma hora depois, quando o alarme do seu relgio tocou, Nicola desligou o pequeno gravador e franziu o sobrolho.
com o olhar percorreu o quarto, que era um refgio de paz e calma.
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O luxo surpreendeu-a. Era evidente que tinha sido decorada havia pouco tempo.
Da janela podia ver os jardins do hotel.
Nicola afastou-se da janela, pois sabia que tinha que comear a preparar-se para o jantar. Passaria a noite em companhia de Matt, em companhia do homem que amava.
Esboou uma careta de amargura. Em teoria, parecia uma coisa maravilhosa, mas na realidade, no que dizia respeito a Matt, seria outra reunio de trabalho. E relativamente
a ela...
Respirou profundamente e os seus olhos turvaram-se com lgrimas repentinas.
Para ela, a noite seria mais horas de trauma e misria, durante as quais teria que lutar para esconder o seu amor.
Nicola guardou o gravador, entrou na casa de banho e abriu a torneira do duche.
Meia hora depois, em frente do espelho do quarto, Nicola estudava a sua imagem. Tinha posto o vestido azul marinho e o rosto estava um pouco plido, apesar da maquilhagem.
Teria que evitar que Matt olhasse para ela directamente nos olhos. Teria que fingir que era um mal-estar fsico que a fazia estar to plida.
Enquanto fechava aporta do quarto, Nicola rezou para que durante a noite no dissesse ou fizesse nada que alertasse Matt para o que na realidade se passava com ela.
Quando faltavam vinte e cinco minutos para as oito, entrou no concorrido bar. Nicola levou vrios segundos a adaptar a vista  luz tnue.
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Sem notar os olhares de interesse que recebia de vrios grupos de homens, Nicola ficou ali, at ganhar coragem.
Quando olhou em volta, viu imediatamente Matt. Estava de p a poucos metros e conversava com uma morena muito alta. Ela falava e naquele momento levantou uma mo
para a colocar no brao de Matt e enfatizar o que dizia. A sensao que dominou Nicola deixou-a doente e tonta.
Odiava o que lhe estava acontecer, odiava o que sentia, odiava estar completamente fora de controle. De repente, o bar pareceu-lhe opressivo e sentiu-se apanhada;
o pnico dominou-a, virou-se com a inteno de fugir, mas antes de poder mexer-se, ouviu Matt que pronunciava o seu nome.
Esforou-se para se voltar e tentou sorrir. Matt estava agora sozinho e a morena tinha desaparecido.
- O que queres beber? - perguntou-lhe Matt. Nicola tentou aclarar a mente, separar-se das
emoes que a dominavam.
- Agua mineral, por favor - pediu Nicola.
- Acho que vamos partilhar a mesa com alguns dos outros delegados - comentou Matt, depois de chamar o empregado. -  o costume nestas ocasies.  uma forma de tentar
que as pessoas se conheam. Quais so as tuas impresses desta tarde, ou ainda  muito cedo.
Nicola respirou fundo e deu graas por poder afastar-se dos seus sentimentos enlouquecidos.
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Quando comeou a falar sobre a conferncia, Matt fez alguns comentrios sobre o que Nicola aprendeu e, pouco a pouco, a tenso comeou a desaparecer. Se pudesse
continuar assim durante o resto da semana; se pudesse forar-se a concentrar a ateno nos negcios, em vez de deixar que as emoes ficassem sem controle, talvez
conseguisse esconder a verdade a Matt. Se ele adivinhasse os seus sentimentos, isso seria a humilhao final.
Quando j iam jantar, Nicola sentia-se mais descontrada, ainda que se tenha contrado quando Matt lhe deu o brao.
Talvez devido  sua falta de peso, Nicola notou que a empurravam para a frente e que quase lhe levantava os ps do cho.
Cambaleou um pouco e Matt protegeu-a com o seu corpo. Era um gesto protector, no sensual, que sem dvida teria tido com qualquer outra mulher na mesma situao,
mas o efeito que teve em Nicola foi devastador.
A jovem sentiu os joelhos fracos e estremeceu tanto que instintivamente se agarrou ao brao de Matt  procura de apoio, antes de se dar conta do que fazia.
Quando se apercebeu do seu comportamento, tentou afastar-se, mas j era tarde demais. O brao livre de Matt rodeava-a com firmeza e aproximava-a tanto dele que Nicola
pde sentir o calor da sua pele e ouvir as batidas do seu corao, quando ela tentou mover-se, Matt murmurou-lhe ao ouvido:
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- Vamos esperar uns segundos para deixar passar a maioria das pessoas.
Nicola desejou apertar-se mais contra o corpo de Matt, tocar com os lbios o seu pescoo, e a sua boca...
Teve que controlar um gemido que quase escapou da sua garganta. A culpa e o auto-desprezo invadiram-na. Nicola mal podia respirar, sabia que o seu pulso estava incontrolvel,
mas no se atrevia a mexer-se. Por fim Matt separou-se um pouco dela e disse:
- Acho que j podemos entrar.
Sem se atrever a olhar para ele, Nicola seguiu-o. Quase no consegui concentrar-se no que ele dizia... era qualquer coisa sobre no compreender a ansiedade das pessoas
para se sentarem a comer.
Foram os ltimos a chegar  mesa. O corao de Nicola encolheu-se quando se deu conta de que era a nica mulher naquele grupo.
Os homens divertiam-se, a julgar pelos risos que ouviu na mesa ao aproximar-se.
Apesar de ter dito para si mesma que era tonta e antiquada, agradeceu a proteco de Matt a seu lado. Ele afastou a cadeira para ela se sentar.
O silncio que se seguiu  sua chegada, quando os homens se voltaram para olhar para ela foi desanimador, mas nada a preparara para a impresso que recebeu quando
Matt se sentou a seu lado e algum comentou:
- Ena, ena, que grande coincidncia. Vocs
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juntos outra vez, no ?  uma coisa permanente ou  s uma aventura duma noite? Parece-me recordar que Nicola  excelente nessas...
Jonathon... Jonathon Hendry estava ali... e tinha-os reconhecido! Nicola mal podia acreditar. Sentiu nuseas de novo, juntamente com uma intensa necessidade de fugir... 
no s dos olhares curiosos dos homens, ou de Jonathon e da sua maldade, mas tambm de Matt.
Nicola nunca imaginou que seria Jonathon que a descobriria.
Apenas consciente do que fazia, Nicola empurrou a cadeira para trs e levantou-se. Ouviu a voz longnqua de Matt que pronunciava o seu nome. Sentia que se afogava
num mar de humilhao,do qual no poderia escapar.
Quando Nicola se levantou da mesa, Matt ps-se em p e observou-a. Estava prestes a segui-la, quando Jonathon se aproximou e fingiu desculpar-se:
- Lamento. No me apercebi de que metia a pata.
Jonathon ficou gelado quando Matt voltou a cabea e olhou para ele.
- Nunca me agradaste, Hendry. Por isso deixei de fazer negcios com a tua empresa - declarou, Matt. - No me considero um homem violento, mas no me provoques.
O resto dos comensais moviam-se nas cadeiras, incomodados. Era bvio quem seria o vencedor. Matt observou que o rosto de Jonathon adquiria um tom avermelhado.
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- Foi uma brincadeira... - disse Jonathon, no tem importncia. Afinal, ela no tentou escon der que tinha passado a noite contigo. Era bvio, I prelo estado em
que se apresentou ao trabalho no dia seguinte, o que tinha acontecido. Devo dizer que estava consternado... Parecia uma pequena I serigaita, mas saiu contigo
a meio da festa de aniP versrio do meu pai. No entanto, surpreende-me v-los ainda juntos. Afinal, um homem no... - Acho que j falaste bastante - Matt interrompeu-o
com voz cida e acrescentou com desr dm. - Tenho a certeza, cavalheiros, que compreendero se no os acompanho... de repente perdi o apetite.
Matt afastou-se, preocupado. Nicola era a mida daquela noite... aquela jovenzinha pequena e imatura que to perigosa e desesperadamente coqueteou com ele. Ento...
Ao chegar ao vestbulo, recordou como se tinha sentido atrado por ela mesmo nessa altura, e o muito que teve que se controlar para no ceder ao desejo que despertou
nele. Na realidade, ela ainda era uma mida, apesar da maquilhagem atroz e do cabelo desarrumado.
Deteve-se um momento, e compreendeu que ela o tinha reconhecido, a julgar pela sua reaco face a Jonathon, ainda que ele no a tenha reconhecido.
Pensativo, Matt contemplou o vestbulo e o seu sobrolho franziu-se mais ao evocar aquela noite quando tentou falar com ela como se fosse uma das
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suas irms mais novas, avis-la do perigo que corria, mas teve que ir para os Estados Unidos. Matt voltou-se e dirigiu-se  recepo. A jovem que estava l olhou
para ele hesitante quando ele fez o pedido. Depois de um momento de considerao, entregou-lhe o que ele pedia.
No quarto, Nicola comeou a fazer a mala, ainda que ignorasse como regressaria a casa. Sentia a necessidade de se afastar do hotel o mais depressa possvel.
No se atreveu a olhar directamente para Matt quando Jonathon a reconheceu. E depois s foi capaz de fugir. Depois, sentiu-se demasiado doente fisicamente para fazer
outra coisa.
Agora, enquanto fazia a mala, ainda tremia e estremeceu, como um animal aterrado. Porque no lhe ocorreu que Jonathon poderia assistir ao simpsio?
Nicola no conseguia deixar de tremer. Tinha preferido mil vezes que Matt a tivesse reconhecido, a ter que suportar o que acabava de acontecer. No entanto, no foi
a humilhao em pblico o que fez com que o pnico a dominasse, mas o que Matt estaria a pensar... ao saber quem ela era na realidade... Deixou escapar um gemido
de angstia.
Bem, j tinha acabado tudo. de forma nenhuma poderia continuar a trabalhar para Matt, nem ele desejaria que continuasse a trabalhar para ele.
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Mesmo que ela no tivesse fugido da casa de jantar daquela maneira, o simples facto de ser quem era...
Nicola no fazia ideia do que diria aos pais. era provvel que lhes contasse a verdade. No tinha recursos para inventar algo que fosse convincente. Alm disso, 
estava
cansada de viver uma mentira, de fingir, de estar horrorizada e aterrada todos os dias, pensando que Matt podia reconhec-la.
Nicola no ouviu que abriam a porta do seu quarto, e no se apercebeu disso at se virar e o ver no umbral da porta, a observ-la.
Nicola foi incapaz de dizer o que a quer que fosse..
- Bem, j tens a mala quase pronta - expressou Matt.
Ela empalideceu muito, sem poder controlar a reaco perante a dor que sentiu.
Sabia o que aconteceria, evidentemente. Agora ela no ia tolerar nenhum tipo de relao entre eles, nem pessoal nem profissional. No entanto, ouvi-lo dizer-lho com
aquela frieza destroou-lhe o corao.
No esperava que ele fizesse aquilo, que a seguisse at ali para v-la partir...
para se assegurar de que partia.
Quando Matt abriu aporta, Nicola metia a ltima coisa na mala. Ele fechou aporta, aproximou-se dela e disse com voz cortante;
- Isso  tudo?
Nicola assentiu e tentou no chorar. Tentou fechar a mala mas no conseguiu.
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Quando Matt a afastou, ela encolheu-se; sentia-se doente. Ouviu-o fechar a mala. Depois retirou-a da cama e voltou-se para Nicola, que estava incapaz de olhar de
frente para ele.
Matt disse de repente:
- Se j ests pronta...
Pronta? Nicola tremia ainda mais. com certeza...
Matt ainda segurava na mala. Queria ter a certeza de que ela abandonava o hotel? era esse o propsito da sua presena?
Nicola no conseguia falar, respirou profundamente e assentiu com a cabea. Ficou tensa quando Matt passou a seu lado e abriu a porta.
Nicola desejou protestar, dizer que ele no tinha necessidade de a humilhar mais, mas no encontrou foras para o fazer.
No elevador, manteve-se afastada dele. No entanto, tinha muita conscincia da sua presena, do seu calor... da sua masculinidade, da sua fora.
O vestbulo do hotel estava quase deserto. Matt deteve-a, indicou a recepo e disse-lhe:
- Espera aqui.
Nicola no tinha alternativa, visto que ele tinha a sua mala. Viu que entregava a chave e dizia qualquer coisa  recepcionista. Nicola decidiu pedir  jovem que
lhe chamasse um txi, ainda que talvez encontrasse um na rua.
Em Bournemouth podia apanhar o comboio, ainda que no fosse directo para casa.
Enquanto Nicola tentava aclarar os seus pensamentos, Matt regressou.
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Quando saram do hotel, Nicola olhou em volta, com a esperana de encontrar um txi, mas Matt instava-a a andar para o estacionamento.
Ao dar-se conta de que a levava para o carro dele, Nicola deteve-se. Ele no pareceu notar a sua surpresa, pois passou a seu lado e abriu aporta do carro sem dizer
nada.
Fazia frio e Nicola estremeceu. O seu corpo reagia  impresso que tinha sofrido.
- Ests com frio; entra no carro - disse Matt.
- Entrar? - Nicola olhou para ele ruborizada. Sabia o muito que ele desejava ver-se livre dela,
mas isso era levar as coisas a extremos ridculos. Ele devia compreender que, independentemente do mal que se tinha comportado no passado, agora era uma mulher adulta,
no uma criana.
- No  preciso - replicou com voz rouca. Posso apanhar um txi. Compreendo que desejes que me v embora...
- Vamos os dois - interrompeu Matt, cortante. - Agora, por favor, entra no carro.
Iam ambos? Jonathon no s a tinha humilhado, como tambm Matt, ainda que de forma diferente.
Matt era agora um homem de negcios respeitado; a sua reputao seria lesada porque se saberia que tinha assistido a um congresso, acompanhado por uma mulher com
quem tinha tido uma aventura. Foi isso que Jonathon disse, e que continuaria a dizer.
Matt aproximou-se dela e repetiu:
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- Entra no carro, Nicola.
Pela sua expresso, a jovem soube que se no entrasse voluntariamente no carro,
ele obrg-la-ia.
- Trmula, Nicola entrou no carro. Se a viagem at ali lhe pareceu uma odisseia, ento como suportaria o regresso a casa?
Nicola decidiu que a nica coisa que podia fazer, quando Matt entrou no carro e ps o motor em marcha, era voltar-se e fingir que ele no a acompanhava.
Dessa maneira, pelo menos no teria que falar. Sabia que lhe devia uma desculpa, mas no fazia ideia de como a formular. Alm disso, para que serviriam as suas palavras?
No podiam apagar o que tinha acontecido.
O facto de Matt abandonar o simpsio, indicava o que pensava do incidente. Nicola fechou os olhos.
Independentemente da urgncia que tinha em falar com ela, Matt decidiu no o fazer enquanto conduzia. Olhou para o relgio.
Eram quase nove horas... isso significava que chegariam depois da meia-noite.
Observou Nicola pensativo. Estava tensa demais para dormir. Estudou o seu cabelo sedoso e sorriu. Evocou aqueles caracis e a roupa brilhante, a maquilhagem excessiva...
com razo no a tinha reconhecido!
Ainda que talvez o seu corpo a tenha reconhecido, pois reagiu ante ela com uma intensidade
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surpreendente. E as suas emoes? Matt retesou-se um pouco ao evocar a frequncia com que pensara nela quando esteve na Amrica... a rapidez com que tentou localiz-la
no regresso. Infelizmente, Nicola tinha abandonado o emprego, sem deixar direco.
Tensa, Nicola olhou pela janela do carro e desejou que a viagem terminasse. com sorte, os pais estariam na cama quando chegasse, pelo que no teria que lhes dar
explicaes at ao dia seguinte.
O dia seguinte... sorriu com pesar e desejou estar a anos de distncia do que estava a acontecer.
Sabia que, independentemente do tempo que decorresse, nunca esqueceria a angstia daquela noite.
Captulo 10
- Nicola.
Uma voz familiar despertou-a. Nicola abriu os olhos com pesar. Ao ver-se no interior do carro de Matt, recordou o que se passava.
O carro estava parado e ao olhar pela janela, no viu a casa dos pais, e sim uma cabana.
Nicola voltou-se para Matt, que falou antes dela:
- Acho que tu e eu temos que falar, no achas? Falar quela hora da noite? Era quase meia-noite.
De qualquer maneira, de que podiam falar? Sabia que Matt esperava a demisso dela, e que nenhuma desculpa da sua parte apagaria o que tinha acontecido.
Antes de Nicola poder expressar os seus pensamentos, Matt ajudou-a a sair do carro. Depois levou-a para a cabana.
- Pensei que seria mais cmodo para os dois falar aqui que no hotel.
Nicola desejou protestar, dizer que queria ir para casa, mas no o fez e entrou na cabana com Matt.
A entrada era pequena e escura. A escada levava ao primeiro andar e havia portas  direita e 
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esquerda do corredor. Matt abriu uma das portas da direita e disse-lhe que entrasse.
Nicola obedeceu e pestanejou quando ele acendeu a luz da sala. Ela olhou assombrada para as paredes; estavam cheias de livros.
Matt leu-lhe a mente e explicou:
- Prefiro ler a ver televiso. Senta-te enquanto preparo caf.
Mais uma vez, Nicola desejou protestar e dizer que no queria beber nada. Sentia como se estivesse a sonhar acordada. Era uma sensao de estranha debilidade e com
certeza, tinha algo que ver com o trauma que tinha sofrido.
Matt voltou com duas chvenas de caf. Nicola estava sentada num dos cadeires, junto da lareira. Quando ele se aproximou, instintivamente, ela encolheu-se.
Matt observou-a muito tempo, antes de perguntar:
- Tens medo de mim, Nicki?
Nicola no soube se foi a voz tranquila ou o facto de lhe chamar "Nicki" que fez com que a sua garganta se fechasse e negou com a cabea.
- Lamento o que aconteceu esta noite - acrescentou Matt. - Tambm lamento no te ter reconhecido antes - dirigiu-lhe um olhar estranho.
- Talvez se tivesse dado mais ateno aos meus sentidos, tivesse recordado.
Nicola olhou para ele e perguntou-se porque seria to amvel com ela, quando deveria estar furioso e irritado.
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Deixou que ele a levantasse e a levasse para o sof.
- Acho que poderemos falar com mais comodidade aqui - disse Matt, e o seu sorriso desapareceu. - O comentrio do Hendry foi extremamente ofensivo e no me surpreende
que te zangasses, mas...
- Aquilo no teria acontecido se tivesse sido sincera contigo, se te tivesse dito, desde o princpio, quem era - interrompeu Nicola, com voz trmula. - Sim, sei
que eu... - sentiu o ardor das lgrimas e a sacudiu a cabea com impacincia. No queria comear a chorar.
- Bem, talvez... mas, dadas as circunstncias, acho que posso entender porque no o fizeste. Por isso  que te mantiveste distante com tanta firmeza, Nicki... por
causa daquela noite?
A conversa no seguia o rumo que ela esperava.
- Culpas-me? - perguntou. - Depois... daquela noite contigo... quando voltei ao escritrio e Jonathon disse... quando ele - os lbios dela tremeram tanto que no
conseguiu continuar a falar.
- O que foi que o Jonathon disse exactamente?
- insistiu Matt.
Nicola sentia que no podia continuar, mas sabia que lhe devia uma explicao.
- Ele... disse que, como obviamente tinha passado a noite contigo, tambm podia fazer o mesmo com ele. Tambm disse com muita clareza como me via... e todos os homens,
sendo uma rapariga
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que ia para a cama com um desconhecido... para passar s uma noite com ele.
Fez uma pausa antes de continuar:
- Eu... no consegui soportar... os cochichos, os comentrios de Jonathon a... meu respeito. Entreguei a demisso e voltei para casa, decidida a que nenhum homem
voltaria a ter motivos para pensar que eu era... uma jovem pega. Infelizmente, uma coisa assim no pode deixar-se para trs com tanta facilidade. Eu... eu temia
que...
- deixou de falar.
- Acho que compreendo o que tentas dizer, Nicki. No entanto, devia ter compreendido, na primeira vez que fizeste amor, que nunca houve nada fsico entre tu e eu.
A nica coisa que fiz foi tentar impressionar-te para entenderes como o teu comportamento era perigoso. Para mim, foi bvio, nessa noite, que eras inocente e ingnua.
Tambm era evidente que toda aquela cena no era por mim, mas para o Jonathon. Tinha trs irms adolescentes e sabia como as raparigas se comportavam. Por qualquer
motivo, recordaste-me as minhas irms, e no consegui evitar pensar o que sentiria se algum homem se aproveitasse delas daquela maneira...
Matt olhou para ela antes de acrescentar:
- Quando adormeceste no carro, sem me dar a tua direco, decidi que o melhor seria levar-te para minha casa e deixar que a bebedeira passasse. Prometi a mim mesmo
que quando acordasses, de manh, te faria o maior sermo da tua vida. No entanto, adormeci e tinha que viajar... - deixou
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de falar e notou que Nicola estava muito plida. O que se passa? O que se passa, Nicki?
Matt teve que repetir a pergunta vrias vezes antes dela o ouvir.
- O que queres dizer com isso de que no houve nada fsico entre ns? - perguntou Nicola com voz rouca.
- Exactamente o que disse - respondeu ele, passado um momento. - Tu e eu nunca fomos amantes. Nicki, eras s uma menina que tinha bebido demais. Acreditas que sou
capaz duma coisa dessas? - depois duma breve pausa, Matt acrescentou. - Mesmo que no tivesse havido nada antes do nosso encontro, tu e o Gordon... parou de falar
ao ver a expresso de Nicola.
- Como poderia? - perguntou apaixonada. como poderia depois do que tinha feito? Como poderia explicar-lhe? Teria que ter mentido - estremeceu. - Vivia numa mentira...
fingia uma coisa que no era. No me permitia ter uma relao, apaixonar-me... para no ter que mentir. Tu eras um homem, no entendes, mas depois daquela noite...
depois do que o Jonathon disse... quando me fez compreender que por ter ido contigo para a cama, e ele sabia-o,ele e os outros homens pensariam que eu... que eu...
- Eras uma pega - completou Matt. - Na realidade ests a tentar dizer-me que... por causa disso nunca fizeste amor? No aconteceu nada, Nicki! Nunca te toquei -
sacudiu-a com suavidade e gemeu ao ver que ela j no conseguia controlar as lgrimas.
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- No entanto, de manh, disseste... tu...
- Ah, sim, isso - assentiu Matt. - No tencionava que isso acontecesse. Mas bem, digamos que estava to impressionado como tu, mas escondi melhor o choque. Tentei
entrar em contacto contigo. Quando voltei dos Estados Unidos, tentei localizar-te, mas na Mattheson e Hendry disseram-me que no tinha deixado direco... Por isso
acabaste com o Gordon? Porque ele queria...?
Nicola negou com a cabea e riu nervosa.
- No, no foi nada parecido. O que Gordon menos desejava de mim era sexo. No...
- Ainda o amas?
- Am-lo? Nunca o amei - confessou Nicola.
- ramos s amigos. Era conveniente para os dois sairmos juntos - falou com amargura. - Era seguro...
- Porque  que o Gordon no te pediria sexo. Oh, Nicki, o que te fiz? No fazia ideia... nunca sonhei...
- A culpa no foi tua - assegurou ela. - Foi minha. Nunca devia ter-me portado daquela maneira, pois assim, Jonathon nunca teria...
Matt gemeu e ela deixou de falar.
- Eras uma mida, isso  tudo,.s uma mida
- disse Matt. - Vou-te dizer uma coisa, se tivssemos feito amor, bbeda ou no, ias lembrar-te disso...
Algo estremeceu no interior de Nicola; uma sensao que retesou o seu corpo.
- Desejava-te - confessou Matt. - Acho que foi isso que fez com que mezangasse contigo...
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saber que ainda que no tivesses o menor interesse por mim, e apesar de coqueteares comigo, eu desejava-te. Na realidade, ainda te desejo... Trmula, Nicola olhou
para ele.
- No podes - protestou. - No, depois de tudo o que aconteceu esta noite... do que Jonathon disse... e o simpsio...
- Ao diabo com o Hendry e com o simpsio expressou Matt. - O que mais importa agora s tu e o que sinto por ti. Quero fazer amor contigo, Nicki.
-  por sentires pena de mim? Porque sentes...
- Porque sinto tanta necessidade de ti que no posso resistir... - corrigiu-a e aproximou a sua boca da dela - porque te amo...
Nicola no conseguia det-lo. Os seus sentidos ansiavam a intimidade. Estremeceu quando as mos de Matt deslizaram pelo seu cabelo e a agarraram. Ele beijou-a devagar,
como se quisesse saborear cada segundo de prazer.
Os lbios de Matt roaram os de Nicola, at que ela pressionou os dele com urgncia,  procura de um prazer maior.
Matt murmurou entre beijos:
- Se no me desejas, dizes-me, no dizes?
Se no o desejava! Tinha que ser bvio para ele o muito que o desejava. Nicola enterrou as unhas nas costas de Matt, numa reaco involuntria  intensidade apaixonada
do beijo.
A parte superior do corpo de Matt cobria a ela e apertava-a contra o sof.
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Nicola sentiu as batidas do seu corao e o calor da sua pele.
Imediatamente, Matt tomou-a nos seus braos e apertou-a contra ele, enquanto lhe beijava o pescoo e lhe acariciava o ombro.
A pele de Nicola ardia onde ele tocava, a roupa era uma barreira insuportvel entre eles. Arqueou-se para ele para que a acariciasse. Quando Matt lhe acariciou os
lbios com a ponta da lngua, Nicola deixou escapar um gemido que fez com que ele fizesse o beijo mais profundo, at um ponto de intimidade cheio de
infinitos prazeres.
Nicola desejava tocar-lhe, acarici-lo todo, sabore-lo... gemeu quando ele terminou o beijo e lhe beijou o pescoo.
Quando as mos de Matt tocaram os seus seios e com suavidade os seguraram, a necessidade de estar livre da roupa era to intensa que Nicola teve que se controlar
para no lho dizer em voz alta. No entanto, Matt pareceu compreender o que ela sentia, visto que abriu o fecho do vestido.
- Se te tivesse feito amor naquela altura murmurou Matt - t-lo-ia feito desta maneira, devagar, com suavidade, tentando no te assustar... tentando controlar o
que me fazias.
Acariciava-a enquanto falava, at que agarrou nos seus mamilos. Entre beijos, dizia-lhe:
- Terias sentido o que sentes agora... o teu corpo desejoso de responder, ao meu. Eu teria sabido ento que no tinhas conhecido o tipo de intimidade que queria
partilhar contigo, o tipo de desejo que faz um homem acariciar o corpo duma
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mulher, no s com as mos, tambm com os lbios e a lngua.
Comeou a tirar-lhe o soutien. Na penumbra do quarto, os seus seios brilhavam plidos; os mamilos endurecidos pareciam pedir a intimidade que ele prometia.
Matt murmurou com suavidade:
- Ter-me-ias visto como agora, e o teu corpo teria tido esta aparncia, os teus seios uma tentao feminina... to grande que no teria podido evitar tocar neles...
sabore-los.
Nicola estremeceu ao ver que Matt inclinava a cabea para lhe beijar os seios.
No seu interior crescia um grande anseio, um desejo de arquear as costas, de lhe segurar a cabea, de o abraar enquanto ele...
A sensao que dominou Nicola f-la gemer de prazer e necessidade e o seu corpo arqueou-se.
Matt murmurava contra a sua pele.
- s bonita, muito bonita - as suas palavras eram uma ladainha de elogios e adorao, enquanto a sua boca continuava a acariciar os seus seios, criando um mar de
sensaes que aumentava o desejo.
S quando a sua necessidade de o acariciar foi insuportvel,  que Nicola o empurrou e tentou explicar-lhe que queria acarici-lo sem a barreira da roupa, poder
ver se o corpo de Matt reagia como o dela.
As palavras eram entrecortadas e inseguras, mas Matt conseguiu compreend-las, guiou os dedos dela at  camisa e ajudou-a a desaboto-la.
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Gemeu com suavidade quando Nicola explorou o seu peito com os lbios, fascinada com dureza da sua pele. As palavras de Matt animavam-na a continuar.
Aos dezoito anos, aquela intensa paixo t-la-ia assustado, mas j no era uma jovenzinha e estava muito longe de sentir medo...
Quando ele tocou o seu cinto, Matt levantou-se
e murmurou:
- Se continuamos assim, no ser possvel voltar atrs, sabes, no sabes?
Os olhos de Nicola seguiram os movimentos de Matt, enquanto ele se despia. Matt contemplou-a com gravidade por um momento, antes de estender os braos para ela.
Matt agora estava de p em frente da lareira, a s uma dezena de passos de Nicola. Ela levantou-se do sof e dirigiu-se para ele.
Ao chegar ao lado de Matt e quando ele a abraou, Nicola descobriu que estava a tremer, no s de paixo, como tambm de alvio.
Sentia alvio por ter tido a coragem de se aproximar dele, de estar a salvo nos seus braos. Era um alvio combinado com o conhecimento de que, independentemente
do que o futuro lhe reservava, Nicola nunca lamentaria o que estavam a partilhar.
Era provvel que Matt s sentisse desejo por ela, mas era um desejo limpo e sincero.
Para ela no haveria lamentaes, nem culpas... nada, s o conhecimento de que os dois desejavam e necessitavam amar-se.
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Quando Matt a abraou e com gentileza lhe tirou a roupa, ambos continuavam de p e a compartilhar a paixo mtua. Nicola sentiu uma profunda alegria e levantou
o rosto para o beijar. Entreabriu a boca e ele acariciou-lha com a lngua, enquanto percorria o seu corpo com as mos. Nicola sentiu que se perdiam os dois no ardente
turbilho da paixo. Matt sussurrava-lhe o muito que a desejava e a necessitava.
Depois deitou-a no cho, sobre as almofadas do sof. Nicola estremeceu com intensidade ao senti-lo contra o seu corpo, excitou-a e f-la gemer dominada pelo desejo.
Ento, Matt esqueceu o controle que esperava ter.
Fazia amor com ela duma forma to ertica que Nicola depressa se perdeu nas sensaes que Matt despertava.
Agarrou-se a ele, pediu-lhe que no permitisse que prazer acabasse e gemeu quando o seu corpo atingiu o xtase.
A sensao de plenitude que se seguiu  paixo, enquanto Matt a abraava e com ternura lhe acariciava o cabelo hmido pelo suor, fez com que os seus olhos se enchessem
de lgrimas. Matt beijou-lhe as plpebras e a ponta do nariz, e enxugou-lhe as lgrimas. Um cansao mental e fsico envolveu-a de repente. Apesar dos seus esforos,
Nicola fechou os olhos e deixou de lutar para se manter acordada.
Matt tocou-lhe na boca com ternura; estava to emocionado que sentiu lgrimas nos olhos.
Durante todos aqueles anos ela pensou... ela
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nunca soube... nunca poderia perdoar-se por isso. Matt sentiu prazer ao saber que era o seu primeiro amante, que o prazer que tinham compartilhado era novo para
ela, natural e instintivo. Em certas ocasies pensou que perderia o controle e arruinaria as coisas para Nicola.
Ps-se de p e devagar,pegou-lhe ao colo, subiu pela escada e colocou-a na cama matrimonial.
Nicola tinha-se entregue com paixo e prazer, mas no lhe tinha dito que o amava... Matt estava surpreendido pela rapidez com que se tinha apaixonado por ela.
Agora eram amantes, mas Matt no s desejava partilhar com ela... o desejo fsico... precisava de mais...
Encostou-se ao lado de Nicola, que se voltou para ele adormecida e se enroscou perto. Os seus lbios curvaram-se num sorriso suave e estendeu a mo para Matt.
Ele inclinou a cabea, beijou-a e compreendeu que no estava to profundamente adormecida como ele tinha pensado.
Nessa vez, fizeram amor duma maneira diferente, com maior conhecimento e partilhando mais. Nicola confiou em si mesma como
mulher e permitiu-se maior intimidade
com Matt.
Descobriu o intoxicante que era acariciar o corpo de Matt com as mos e a boca, sentir que era capaz de ench-lo de paixo, simplesmente deslizando os dedos pelas
suas coxas ou pelo ventre.
Mais tarde, quando o desejo de Nicola a incitou a carcias mais ntimas, foi ela que estremeceu de
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prazer ao sentir e ver a resposta do corpo de Matt perante a sua delicada explorao. Quando quis afastar-se dele meio receosa pela intensidade da paixo de Matt,
este deteve-a com suavidade e murmurou quanto prazer lhe dava... quanto adorava a forma como o acariciava, a intimidade daquelas carcias, ainda que mal pudesse
suportar o imenso prazer.
- Deixa-me mostrar-te o que se sente ao ser amado com tanto prazer - disse Matt.
Nicola estremeceu convulsivamente ao pensar num amor to ntimo. Conteve o alento sentindo uma mistura de tenso e deleite quando ele a acariciou. Temia um pouco
a intensidade das emoes, lutava para controlar a sua paixo, no estava segura de se desejava entregar-se a tanta intimidade, a tanto prazer. No entanto, ao mesmo
tempo, no podia negar o que lhe acontecia.
Quando gemeu dominada pela sensao quase insuportvel, Matt respondeu  sua necessidade, abraou-a e acariciou-a com ternura, at os espasmos se desvanecerem para
depois lhe demonstrar que, ainda que aquela sensao fosse intensa, existia um prazer muito especial em chegarem juntos ao clmax.
Mais tarde, quando estava prestes a adormecer, Nicola perguntou-se porque teria Matt querido fazer amor com ela.
No sabia se tinha sido por compaixo, por culpa ou pelo desejo que uma e outra vez tinha confessado sentir.
O que Nicola sabia, era que ela o amava. Sim,
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amava-o, mas... teria a fora suficiente para se afastar dele, para se contentar com o que tiveram, sem procurar mais?
Ao adormecer, os seus olhos estavam hmidos de lgrimas.
- Nicki, acorda.
Nicki abriu os olhos e descobriu que ele estava de p junto da cama, meio vestido. Tinha o torso nu e o cabelo molhado... tal como oito anos antes.
Na mesinha de cabeceira havia uma chvena de caf e pela expresso de Matt, Nicola suspeitou que talvez lamentasse o que tinha acontecido...
Voltou a cabea, pois temeu que ele pudesse ler no seu olhar quanto o amava. Ento, a mo de Matt segurou o seu rosto e obrigou-a a olhar para ele.
- No me vires a cara - replicou ele.
A emoo da sua voz surpreendeu-a e olhou para ele com insegurana.
Passado um momento, Matt declarou:
- No quero apressar-te... no entanto, depois do que aconteceu ontem  noite, deves compreender o muito... o muito que te amo.
Nicola olhou para ele surpreendida.
- Amas-me? No podes... nunca disseste... tu no...
- Que no o fiz? - perguntou Matt com suavidade. - No te demonstrei o muito que significas para mim, o muito que te amo? Pensas sinceramente que se no te amasse
teria...?
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Matt parou de falar e olhou para ela com amor.
- Prometi a mim mesmo que no faria isto, que no te pressionaria... que no suplicaria... Oh, cus, estou a comportar-me como um tonto... Nicki, lamento. No foi
minha inteno... suponho que se deve  tenso de te amar... de te desejar... ao medo de saber que se te deixo sair daqui, sairs da minha vida e no voltars. Deixeite
sair uma vez. Talvez nessa altura, no soubesse o que perdia, mas agora sei. Nicki, se no te interesso... se sentes que nunca me poders amar, diz-me. Se no me
amas...
Nicola deixou escapar um som de angstia ao ouvir as suas palavras, Matt olhou para o rosto dela com ansiedade e descobriu o amor nos seus olhos.
- Amas-me? - perguntou-lhe num sussurro. Nicola assentiu, no conseguia falar, no podia acreditar no que estava a acontecer. - Amas-me realmente!
Ele cobriu-a de beijos e abraou-a com paixo. Depois, beijou-a com ferocidade e obrigou-a a responder, a agarrar-se a ele, ao mesmo tempo que lhe dizia uma a outra
vez o muito que a amava.
Muito tempo depois, quando por fim ambos desceram das nuvens, falaram, trocaram confidncias, fizeram planos e promessas.
Matt tinha-a abraada quando confessou:
- Nunca foi minha inteno causar-te tanta dor. Sinto-me to culpado por isso... Por no te ter dito o que aconteceu entre ns antes de partir para Nova Iorque.
No fazia ideia de que te causaria
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um trauma to grande. A minha inteno foi s assustar-te, fazer com que parasses para pensar no que fazias, no risco que corrias.
- A culpa no foi tua - assegurou Nicola. Se o Jonathon no tivesse...
Matt colocou os dedos sobre os seus lbios para a silenciar.
- Shh... ele  a ltima pessoa de quem quero falar agora.
- Se no tivesse sido ele, talvez isto nunca tivesse acontecido - disse Nicola em tom de brincadeira.
- Mais tarde.ou mais cedo isto teria mesmo acontecido - disse Matt com firmeza. - Talvez no com tanta rapidez e intensidade, mas comecei a amar-te muito antes de
ontem  noite. Desejava estar perto de ti, mas cada vez que o tentava afastavas-me. Pensei que era por causa do Gordon...
- Tinha medo - confessou Nicola. - No queria que me reconhecesses porque me sentia culpada e envergonhada.
Matt acariciou-a com doura.
- Ainda que tivssemos feito amor naquela noite - disse - ou qualquer outra noite, se te tivesse acontecido com qualquer outra pessoa, isso no mudaria o que sinto
por ti. Eras uma criana, Nicola, isso  tudo... mal tinhas conscincia do que estavas a fazer, do que incitavas... soube que a nica coisa que querias era fazer
cimes a Jonathon.
- No completamente - disse Nicola e corou um pouco. - Isso foi ao principio, mas quando
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comeamos a danar... - deixou de falar e olhou para ele. - Desejei-te nessa altura, Matt, e acho que saber que te desejava me ajudou a convencer-me de que tnhamos
sido amantes. Acho que muito no fundo desejava que tivssemos sido.
Ele beijou-a e abraou-a com fora, ao dizer-lhe que seriam amantes o resto da vida.
- Esperei muito tempo para te encontrar confessou Matt com amor. - Agora que te tenho, no quero esperar mais. casas comigo, Nicki?
Ela assentiu e Matt voltou a beij-la.
- Agora, senhora Hunt, acho que devemos brindar pela pessoa que tornou isto possvel.
Havia menos de uma hora que tinham chegado  cidade onde iam passar a lua de mel, numa pequena ilha do Caribe.
- Jonathon - adivinhou Nicola.
- Jonathon - concordou Matt e sorriu. Pousou o copo e tomou Nicola nos seus braos. Aqui escurece muito cedo, no ?
-  - respondeu Nicola. - Na realidade j est escuro, devem ser horas de ir para a cama...
- Tiraste-me as palavras da boca - murmurou
Matt.
- E o jantar? - perguntou Nicola fingindo um
protesto quando ele a levantou.
- Depois - respondeu Matt. - Depois, agora temos que fazer uma coisa mais importante.
- Muito mais importante - Nicola concordou.
- Muito, muito mais importante.

FIM
